EPISÓDIO 4 — Orientando-se entre Tintas e Máquinas de Escrever — O Claudio Seto jornalista do Correio de Notícias: de 1984 a 1994

Resumo do episódio

Episódio 4 — Nasce o multiartista

Com o fim da Grafipar, Claudio Seto transforma o jornal em nova trincheira de linguagem. Entre charge, crítica cultural, artes plásticas, zazen e comunidade japonesa, ele se mostra ainda mais complexo. Neste episódio, acompanhamos a fase em que sobreviver não significa apenas continuar trabalhando — mas sim mudar de forma sem perder a essencia.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch

Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Em 1984, Claudio Seto vê a história se repetir.

Mais uma vez, a editora para a qual trabalhava entra em colapso…

Mais uma vez, ele precisa pensar no que fazer da vida.

Mais uma vez, precisa encontrar como continuar…

Mas, desta vez, Seto não sai de Curitiba. Não some. Não se recolhe.

Ele monta um currículo e vai atrás de trabalho!

Isso, por si só, já tem alguma ironia. Afinal, Seto tinha sido editor da Grafipar, uma das experiências mais intensas dos quadrinhos brasileiros… Aquilo deveria significar alguma coisa!

Só que, em Curitiba, quase NINGUÉM reconhecia a Grafipar como capital cultural realmente prestigiado. O que ele havia ajudado a construir ainda ocupava um lugar ambíguo demais: entre erotismo, margem, imprensa alternativa e prestígio incompleto…

É nesse ponto que o jornal Correio de Notícias reaparece.

Com um novo dono, o Correio de Notícias volta a circular em 15 de maio de 1984, embalado pelo clima de abertura política das Diretas Já. E logo na edição do dia seguinte aparecem uma ilustração e uma charge de Claudio Seto.

A reinvenção de Seto não começa como discurso.

Começa como gesto… Como trabalho… Como linha traçada em papel jornal.

Aos 40 anos, depois de ter dedicados 20 anos da sua vida aos quadrinhos, Seto reorganiza o seu mundo para seguir desenhando.

Dessa vez, através do jornalismo, das reportagens e das artes plásticas.

BLOCO1

O Correio de Notícias dá a Seto muito mais do que emprego.

Dá ritmo. Dá rotina. Dá circulação diária. Dá uma nova forma de presença.

Pelo volume de charges que ele publica a partir dali, tudo indica que, no início, sua atuação foi mesmo como chargista. E isso indica uma transformação! Porque a charge exige outra coisa do artista. Exige síntese, rapidez, leitura de conjuntura, resposta imediata!

É um trabalho BEM diferente do quadrinho longo.

Mas não é ruptura: é adaptação.

Cinco meses depois, em 6 de outubro de 1984, Seto ganha destaque numa matéria sobre seu momento presente. Nela, a jornalista Cila Shulman o descreve como o ilustrador do jornal e afirma que Claudio Seto “desenha, ilustra e faz quadrinhos doze horas por dia, sem descanso, há vinte anos”.

Essa frase tira a reinvenção do campo do romantismo.

Seto não é um artista esperando inspiração: é um artista trabalhando o tempo inteiro! Todos os dias. Em todos os suportes possíveis.

Mesmo com o trabalho jornalístico cada vez mais intenso, Seto decide investir sua energia criativa nas artes plásticas. Volta a vender quadros, participar de exposições, e começa a abrir novos espaços para sua produção autoral—fora do circuito dos quadrinhos.

Então, podemos dizer que o jornal não reduz o artista. Pelo contrário: o jornal expande suas possibilidades artísticas!

Ele passa a desenhar, ilustrar, escrever, circular, reaparecer publicamente.

E, aos poucos, o que parecia apenas uma saída profissional começa a virar outra coisa: uma nova forma de expressão criativa.

BLOCO 2

Em 1986, essa fase ganha outra espessura.

É como se o jornal deixasse de ser SÓ lugar de sobrevivência e passasse a funcionar como plataforma!

Em abril daquele ano, o Correio de Notícias publica uma reconstituição de crime em quadrinhos feita por Claudio Seto: oito quadros sobre o sequestro e assassinato de um garoto de 11 anos, em Campo Mourão, cidade localizada no centro-oeste do Paraná.

O dado é curioso, porque antecipa o trabalho que ele fará na sua próxima fase, para o jornal Tribuna do Paraná — e do qual falaremos no próximo episódio.

Em maio, saem duas notas na mesma página sobre ele. Uma registra sua participação na World Cartoon and Comics Expo 86, no Japão. A outra, sua seleção para a 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, promovida pela Secretaria de Cultura.

E, em junho, Seto publica uma CRÍTICA dura à mesma Secretaria, questionando o tratamento desigual dado aos artistas selecionados!

A essa altura, fica claro que o Correio de Notícias realmente se transforma na sua principal plataforma de divulgação e expressão!

Esse movimento é importante!

Porque aqui, ele já não aparece só como ilustrador ou artista plástico tentando espaço.

Aparece como alguém que usa o jornal para intervir e movimentar a cena cultural da cidade!

No mesmo ano, consegue sua primeira exposição individual no Paraná: Hara Kiri em Cascavel, no SESC da cidade de Cascavel, no norte do estado — com grandes painéis com releituras do Japão medieval em cores intensas!

Ainda não era uma exposição individual na capital. Mas, já era afirmação!

Ao mesmo tempo, ele vai se aproximando mais da comunidade nipo-brasileira, participando de mostras com artistas de ascendência japonesa.

Tudo isso desemboca muito bem em 1987.

É nesse período que Seto publica colunas sobre arte, nas quais questiona hierarquias entre linguagens e defende uma ideia menos estreita de criação.

E, é também nesse ano, que explode a polêmica do 43º Salão Paranaense!

Um dos jurados, Walmir Ayala, declara publicamente que a obra de Seto — o Cubo Cósmico — deveria ter sido premiada. Chama o trabalho de “o mais inventivo do salão”! Um trabalho de pesquisa SÉRIO! Manipulável.

A fala importa porque expõe uma tensão que atravessa essa fase inteira: parte do meio artístico ainda não sabia bem onde colocar Claudio Seto.

Quadrinista?!

Pintor?

Artista pop?!

Figura marginal?

Pesquisador visual?

Talvez a resposta fosse justamente essa mistura…

E, pra misturar ainda mais, em junho de 1987, nasce a página Oriente-se—dedicada à cultura japonesa — e da qual Seto é um dos redatores.

Esse detalhe coloca mais uma camada no nosso episódio.

Porque, a partir daqui, o jornal deixa de ser apenas um lugar de charge, crítica e artes plásticas.

Passa a ser também um espaço para falar sobre toda a cultura japonesa transmitida pelo avô.

BLOCO 3

No fim dos anos 1980 e começo dos 1990, Claudio Seto já não aparece apenas como quadrinista que migrou para o jornal. Aparece como uma mistura difícil de classificar: artista plástico, redator, chargista, homem ligado ao zen, presença constante na cena cultural e ponte cada vez mais forte com a comunidade japonesa de Curitiba.

A página cultural Programe-se, para a qual ele escrevia notícias e conduzia entrevistas, vai sendo reformulada até mudar de nome e tornar-se Vernissage, uma página sobre artes plásticas editada por ele — tornando-o um importante interlocutor de arte na cidade.

Já a coluna Oriente-se transforma-o no principal consultor de cultura japonesa em Curitiba!

E, como uma bela lembrança, em 1988, ele recebe o Troféu Angelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional!

O detalhe é bonito porque esse reconhecimento pelos quadrinhos vem justamente quando sua figura já está transbordando os quadrinhos.

Como se a premiação confirmasse uma origem, enquanto a vida já estava em outra expansão…

Em 1990, a matéria “Quinze anos tirando tudo do nada” ajuda a consolidar esse retrato. Anuncia sua exposição individual em Curitiba, com 36 telas inéditas de pintura abstrata. E é nessa altura que Seto começa a aparecer cada vez mais nessa chave múltipla: artista, praticante de zazen, articulador cultural… um homem difícil de caber numa única definição.

Nos anos seguintes, ele ministra cursos de desenho na Gibiteca de Curitiba e no Centro de Criatividade. Mas a cultura japonesa o chamava — e ele queria registrar um material mais concreto sobre sua ancestralidade.

É então que um novo encontro decisivo acontece!

A jornalista Maria Helena Uyeda chega ao Correio de Notícias em 1991, e eles logo se tornam amigos. No ano seguinte, Seto conta a ela que quer escrever um livro sobre a imigração japonesa e a convida para ser coautora.

Pode parecer um detalhe pequeno. Mas, nos mostra que essa fase do jornal já está preparando outra coisa…

O chargista.

O ilustrador.

O artista plástico.

O redator.

O jornalista da página cultural.

Tudo isso começa a se reorganizar em torno de um desejo MAIOR: o de transformar memória coletiva em livro.

ENCERRAMENTO

Depois da Grafipar, Claudio Seto não desaparece.

Também não se repete.

Ele muda de suporte.

Muda de ritmo…

Muda sua produção!

Mas continua reconhecível!

Talvez seja isso que esta fase revele… com mais clareza.

O que havia de mais forte em Seto não era apenas o quadrinho.

Nem apenas o traço…

Nem apenas um repertório japonês transplantado para o Brasil…

Era uma capacidade de migrar… sem se perder!

No Correio de Notícias, essa capacidade ganha outras formas.

Vira charge…

Vira texto…

Vira crítica…

Vira pintura…

Vira ponte!

E, quando o jornal encerra suas atividades, em 1995, Claudio Seto já não é apenas o artista que sobreviveu ao fim de duas editoras.

É alguém que aprendeu a continuar — e, continuando, ficou ainda MAIOR!