EPISÓDIO 5 — Entre Bonsais e Sangue: um sacerdote Zen reconstituindo crimes para o jornal A Tribuna Do Paraná — de 1995 a 2008

Resumo do episódio

Episódio 5 — Nasce o mestre zen

Em sua última fase, Claudio Seto já não cabe em uma única função. Entre bonsais, redação de jornal policial, festivais e lendas japonesas, livros sobre imigração e vida comunitária, ele se torna uma ponte viva entre memória, trabalho e afeto. Neste episódio, acompanhamos a expansão de uma trajetória múltipla, na qual Seto transforma tudo o que recebeu em transmissão.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch
Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Em 1995, Claudio Seto já tinha aprendido uma coisa importante: nem todo fim é um ponto final.

Pela terceira vez, a empresa para a qual trabalhava encerrava as atividades.

Pela terceira vez, ele precisava encontrar outro lugar para continuar…

Mas agora havia uma diferença…

Desta vez, Seto não precisava se apresentar ao mundo como alguém começando do zero.

Já era conhecido.

Já tinha contatos.

Já era experiente.

No mesmo março de 1995, ele passa a ilustrar para os jornais O Estado do Paraná e a Tribuna do Paraná. E a edição do dia 15 de março da Tribuna já traz sua ilustração em destaque na capa!

A passagem é quase sem ruído. Apenas um jornalista transitando entre jornais.

Nesse último episódio, chegamos a uma fase da vida de Claudio Seto em que ele já não luta apenas por espaço para si. Passa, cada vez mais, a trabalhar para que histórias, vínculos e memórias não se percam.

BLOCO 1

A cena mais forte desta fase talvez seja também a mais improvável.

De manhã, Claudio Seto cuidando de bonsais.

À noite, reconstituindo crimes em forma de quadrinhos para a capa do jornal.

A rotina de Seto foi mudando, aos poucos. Mesmo ainda trabalhando em jornais diários, ele começa a aparecer na redação apenas no fim da tarde ou no começo da noite, quando as notícias do dia seguinte já estavam disponíveis. Assim, ele podia dormir até mais tarde e dedicar o período da manhã aos bonsais.

Em 2001, diria que cuidar de bonsais era o que mais gostava de fazer.

Nessa época, ele tinha quase 500 árvores em miniatura em seu jardim.

E dizia ter herdado do avô esse amor pelas plantinhas…

Seto convive com duas temporalidades muito diferentes.

A da urgência… da manchete… e do crime.

Junto com a da poda… do cuidado… e da paciência.

Em vez de se anularem, essas duas coisas parecem se condensar em Seto.

Como se, no fim da vida, sua multiplicidade deixasse de ser apenas uma soma de atividades e virasse um modo de estar no mundo.

Se antes as pessoas o procuravam mais por causa das pinturas, nessa fase, passaram a procurá-lo pelos bonsais.

Isso nos diz alguma coisa…

Que Seto já não estava SÓ produzindo imagens: que estava, também, cultivando o cuidado, a cultura e a ancestralidade!

BLOCO 2

Mas, é claro que Seto não se limitava à redação e ao jardim.

O que vai se formando aqui é outra coisa: uma figura de mediação.

Com o fim do Correio de Notícias, ele passa a editar o Jornal do Nikkei, voltado à comunidade japonesa de Curitiba. Depois, o veículo é rebatizado de Planeta Zen e começa a circular também nos festivais japoneses, para um público mais amplo.

Festivais japoneses que, aliás, ele cria em 1992 e ajuda a levar para fora da comunidade japonesa, criando um público cativo dos Matsuri em Curitiba que perdura até os dias de hoje.

Como um jornalista especializado em cultura japonesa, Seto se torna correspondente do jornal Paraná Shimbun e colaborador do jornal NippoBrasil, onde publica, entre 2000 e 2005, dezenas de adaptações livres de mukashi banashi—versões das antigas fábulas japonesas que ouvira do avô.

Sua dedicação ao jornalismo direcionado à comunidade japonesa demonstra como a voz dele vai se deslocando para mais perto da transmissão cultural, da memória oral e da ponte entre gerações.

Ao mesmo tempo, sua aproximação com o zen também se aprofunda. Ele passa a assinar como sacerdote Onmyoji Seto Shamon, escreve horóscopos japoneses e publica, em 1998, a primeira edição do Almanaque Garça da Sorte—um almanaque com previsões do horóscopo chinês para o ano.

À primeira vista, tudo isso pode parecer dispersão. Mas não é!

É coerência, só que por outras vias.

Seto vai ligando pessoas, jornais, instituições, festas, repertórios e histórias. Vai tornando a cultura japonesa menos um patrimônio distante e mais uma prática viva, presenteando a cidade os mundos que ele ajudou a construir.

E talvez seja por isso que, nesta fase, ele já não se limite a ser um artista, ou um jornalista…

Seto se torna um imã… Um agitador cultural! Um consultor de cultura japonesa.

Um verdadeiro mestre zen: focado no momento presente, maleável como a água.

BLOCO 3

Tudo isso vai se condensando em obra…

Em 18 de junho de 2002, Claudio Seto e Maria Helena Uyeda lançam o livro Ayumi — caminhos percorridos, memorial da imigração japonesa em Curitiba e no litoral do Paraná.

O livro levou mais de dez anos para ser escrito, tamanha foi a pesquisa realizada por eles!

O desejo transformou-se em um projeto de longa duração, que demandou não apenas horas de trabalho, mas também de cooperação e amizade.

Mas o desejo não se esgotou nesse primeiro livro. Mal terminaram esse, e já planejavam outros!

E os próximos anos foram—especialmente—intensos! Cheios de reuniões, festivais japoneses, organização de eventos, homenagens e presença constante nas atividades da comunidade japonesa.

Em 2007, Seto recebe o título de Cidadão Honorário de Curitiba.

Em 2008, o troféu HQMix—o prêmio mais importante dos quadrinhos brasileiros—homenageia os premiados com estatuetas inspiradas em O Samurai.

O PRÓPRIO Seto recebe uma dessas estatuetas, como Mestre dos Quadrinhos Nacionais. Foi durante essa celebração que ele encontrou, pela última vez, seu amigo dos tempos da Edrel, Minami Keizi.

Em junho de 2008, duas celebrações muito próximas dizem muito sobre o momento que ele estava vivendo.

No dia 21, a exposição coletiva Arte Nikkei, no Museu Oscar Niemeyer, marca um retorno tímido às artes plásticas.

No dia 23, ele lança o livro “Lendas Trazidas pelos Imigrantes do Japão”, uma coletânea de textos e ilustrações das mukashi banashi—as fábulas japonesas que ele ouvia do avô.

A agenda está cheia.

E ele parece satisfeito com isso.

Talvez porque, nessa altura, Seto já não estivesse apenas fazendo coisas.

Estivesse fechando um circuito.

O menino que recebeu do avô kanji, pintura, lendas e bonsai… agora devolvia ao mundo livros, festivais, jornais, lendas ilustradas, amizades cultivadas!

Seto, que nos deu tantas coisas e dedicou sua vida à expressão, infelizmente teve que se despedir cedo demais.

No dia 13 de novembro de 2008, durante uma consulta de rotina, Claudio Seto sofre um AVC no consultório médico. Dois dias depois, é decretada a morte cerebral. No dia 16, seu coração para de bater.

Mas o episódio não precisa terminar assim, no vazio que essa despedida deixa.

ENCERRAMENTO

Ao longo da vida, Claudio Seto foi muitas coisas.

Um menino em formação.

Um quadrinista prolífico!

Um editor que sabia articular.

Um multiartista que se reinventava…

No fim, vira outra coisa…

Vira um guardião!

Não no sentido de alguém puro… distante do mundo… pacificado demais.

Mas, no sentido de alguém que aprendeu a fazer circular o que recebeu.

Lendas. Desenho. Cultura. Trabalho. Amizade. Memória.

Talvez esse seja o fechamento mais justo para a trajetória dele.

A polimatia de Seto nunca foi exibicionismo de talentos.

Foi uma forma de servir de ponte.

E, quando ele sai de cena, o que fica não é só sua obra…

Fica uma rede.

Fica uma cidade atravessada por sua presença.

Fica uma comunidade que ele ajudou a cultivar.

Ficam as pessoas que conviveram com ele… e que mantêm vivas as suas histórias.

Fica um conjunto de memórias que, sem ele, talvez tivessem se perdido…

A vida de Claudio Seto não se esgota nessa despedida.

Ela continua ressoando…

Essa série é um pedaço da memória de Seto — e, agora que você a ouviu, você também faz parte dela!

Nessa história, não há lições, nem moral, nem nada disso. Mas há o legado: o legado de alguém que ousou ser tão autêntico—

Mesmo tirando TUDO do NA-DA!