EPISÓDIO 3 — Curitiba e o Tonguenkyo de Claudio Seto na Editora Grafipar: de 1975 a 1983

Resumo do episódio

Episódio 3 — Nasce o articulador

Depois da Edrel, Seto chega a Curitiba sem saber se vai continuar produzindo quadrinhos. A dúvida se dissipa quando ele ingressa na Grafipar, e passa de quadrinista para editor, ajudando a construir uma comunidade de artistas e leitores. Este episódio acompanha o momento em que Claudio Seto deixa de ser apenas autor e passa a articular um ecossistema inteiro — até ver esse mundo começar a ruir por dentro.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch

Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Em 1975, Claudio Seto não estava exatamente começando do zero.

Mas, também, não sabia muito bem para onde estava indo.

A Edrel tinha ficado para trás…

A política em Guaiçara já não parecia mais tão interessante assim…

Tinha trabalhado. Tinha circulado. Tinha ganhado prestígio local.

Mas faltava uma direção para seguir…

Naquele momento, Seto havia sido reeleito vereador, tinha uma vida social intensa e ainda guardava uma poupança capaz de sustentar ele por um ano. Só que nada disso resolvia a questão principal: o que fazer como quadrinista?

Em fevereiro daquele ano, ele se casa com Mitsue Kawahara. Depois da festa, os dois entram no fusca herdado da fase Edrel e saem em lua de mel sem destino definido. Vão cruzando o interior paulista, descem pelo Paraná, passam por Santa Catarina, até chegarem na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, no Rio Grande do Sul. Na estrada, Seto pinta paisagens e vende quadros para que eles tenham dinheiro para continuar a viagem.

E essa viagem nos revela muita coisa!

Mesmo quando o caminho não está claro, Seto continua transformando experiência em trabalho, em imagem, em circulação.

Mas a aventura vai apertando! Em julho, no caminho de volta para Guaiçara, eles chegam a Matinhos, litoral paranaense. Porém, eles não tinham nem dinheiro e nem material de pintura para seguir…

Seto vende sua máquina fotográfica, de estimação, para que o casal consiga chegar ao banco mais próximo, em Curitiba, para receber ajuda de parentes.

E… é na capital paranaense, na madrugada de 17 de julho de 1975, hospedados no hotel Ouro Verde, que acontece a cena que mais tarde se transformaria em mito: na manhã seguinte, a cidade amanhece coberta de neve!

Anos depois, Seto diria que foi naquele dia que encontrou o próprio Tonguenkyo — uma espécie de paraíso das lendas japonesas que ouvira do avô.

Isso porque Curitiba aparece, naquele contexto, como uma possibilidade.

Como uma suspensão.

Como um recomeço…

Como se a vida indicasse: tem um NOVO CAMINHO aqui!

BLOCO 1

Nos primeiros meses em Curitiba, Seto não volta imediatamente aos quadrinhos.

Ele e Mitsue alugam uma casa na mesma rua do hotel onde estavam hospedados. Seto consegue trabalho no Ipag — antigo Sebrae — produzindo material audiovisual para cursos de micro e pequenos empresários.

Ao mesmo tempo, faz freelas para O Estadinho, suplemento infantil do jornal O Estado do Paraná, desenhando histórias em formato shoujo mangá para crianças. E, por um tempo, como ainda era vereador, precisa ir até Guaiçara a cada quinze dias, até que um substituto assuma sua vaga na Câmara.

É um momento de travessia, em que o quadrinho não desaparece, mas também não organiza a vida inteira.

Seto está entre coisas.

Entre cidades.

Entre trabalhos.

Entre fases.

Até que, em maio de 1977, acontece uma pequena cena decisiva.

Ele compra, numa banca de jornal, um exemplar da Revista Peteca, publicada pela Grafipar. E, ao folheá-la, Seto reconhece ali alguma coisa do espírito da Edrel. Não o mesmo mundo. Mas um eco. Uma pista. Uma continuidade improvável.

Ele se anima!

Manda pelo correio algumas histórias suas já publicadas na Edrel.

E, na mesma carta, sugere a Faruk El Khatib, o editor da Grafipar, a criação de uma revista de quadrinhos eróticos!

A resposta viria só no ano seguinte, quando Luiz Rettamozo, o Retta, avisa Faruk que Claudio Seto está morando em Curitiba. Faruk acha o nome familiar, abre uma gaveta e reencontra o envelope recebido um ano antes, com os originais de Seto.

Só então que o artista é convidado para uma reunião na editora.

Depois de duas horas de conversa com Faruk e Retta, Seto dá sugestões de como inserir o erotismo com mais direcionamento e ousadia nas revistas da editora.

O ano é 1978—e Seto está de volta aos quadrinhos!

Em apenas uma semana, produz 24 páginas INÉDITAS para a revista Eros – Sexo em Quadrinhos. Quatro anos depois de sair da Edrel, o caminho estava reaberto.

Mas, talvez, o mais importante desse retorno é que Seto não volta apenas como quem reencontra um emprego…

Ele volta como quem percebe, dentro de uma editora ainda periférica, a chance de reconstruir um espaço para os quadrinistas brasileiros.

BLOCO 2

Em dezembro de 1979, Claudio Seto passa a ter carteira assinada pela Grafipar.

Recebe um salário mínimo, mais pagamentos variáveis conforme a produção de páginas e os trabalhos de diagramação.

No papel, é um emprego. Na prática, é outra coisa. Porque Seto não leva para a Grafipar só o traço… Leva experiência editorial, capacidade de organizar produção, leitura de mercado e, sobretudo, uma energia de convocação!

A notícia de que a Grafipar estava publicando quadrinhos nacionais correu RÁPIDO!

O próprio Seto conta isso com humor: no primeiro número, ninguém acredita que vá continuar; no segundo, ainda desconfiam; no terceiro, todo mundo quer colaborar. E é isso que começa a acontecer!

Ele chama antigos artistas, atrai novos, convida colegas a morarem em Curitiba. A editora vai virando ponto de encontro, possibilidade real de trabalho, promessa concreta de continuidade.

Em junho de 1979, Seto convoca uma reunião na sede da editora com 21 artistas de várias partes do Brasil. O objetivo era discutir como enfrentar os syndicates americanos com quadrinhos nacionais. A reunião é importante porque transforma um desejo disperso em projeto coletivo. Pouco tempo depois dessa reunião, Seto se torna editor do Grupo dos Quadrinhos da Grafipar.

Foi nessa mesma reunião que ele convidou artistas para morar em Curitiba.

E não ficou só no convite! Seto procurou casas perto da sua, no bairro São Brás, para receber quem aceitasse vir.

Dessa empreitada nasceu a Vila dos Quadrinistas: um terreno com quatro meias-águas de madeira, muros baixos, circulação intensa e MUITA produção!

Em momentos diferentes, passam por ali nomes como Watson Portela, Gustavo Machado, Itamar Gonçalves, Fernando Bonini, Franco de Rosa, Rodval Matias e Ataíde Braz. Sob a tutela de Seto, muitos puderam viver exclusivamente de quadrinhos!

Só pelo fato de existir, a Vila dos Quadrinistas importa MUITO!

Não como folclore.

Mas como ecossistema.

Porque demonstra como a Grafipar foi capaz de movimentar o mercado!

Em janeiro de 1980, a editora publicava nada menos do que 16 revistas mensais, duas quinzenais e ao menos cinco revistas extras por mês! Até a Maria Erótica volta com uma revista própria!

Seto edita, desenha, organiza, pensa em alternativas para manter o trabalho dos artistas nacionais e chega a escrever longos editoriais defendendo os quadrinhos brasileiros feitos “na raça”: ou seja, feitos apenas com personagens e histórias autorais!

Pela primeira vez, Seto não está apenas tentando caber num espaço.

Ele está articulando para ajudar a construir esse espaço.

BLOCO 3

SÓ que esse espaço cresce de forma descontrolada!

A Grafipar aumenta a produção, diversifica títulos, amplia a linha erótica e sobrecarrega seus artistas. Seto luta para manter o espaço para os quadrinhos nacionais, segurando a entrada de material estrangeiro. Chega a fazer desaparecer 500 páginas de quadrinhos italianos—compradas por Faruk—para abrir lugar a personagens originais. Mas a estrutura começa a ranger…

A crise piora quando Faruk decide expandir os negócios e compra o jornal Correio de Notícias, usando o capital de giro da própria Grafipar. Sem conseguir sustentar o jornal por muito tempo, Faruk o vende quatro meses depois.

Mesmo meio quebrado, Faruk decide comprar a parte do pai e do irmão na editora, usando ainda mais recursos da editora. A partir daí, a Grafipar entra numa bola de neve de dívidas. A produção sobe, a qualidade cai, e os quadrinistas ficam sobrecarregados.

E o contexto externo também atrapalha!

A abertura política libera a pornochanchada, o nu frontal e o sexo explícito em revistas com fotos. Os quadrinhos eróticos passam a disputar atenção com publicações mais quentes. Para sobreviver, a editora radicaliza. Os títulos ficam mais pornográficos. A pressão aumenta!

Seto tenta reagir.

Cria quadrinhos pornográficos porque o mercado empurra nessa direção. Tenta usar o que aprendeu na Edrel para não repetir o mesmo colapso. Cria a Bico de Pena, pensada como uma espécie de cooperativa, em que artistas e colaboradores teriam participação nos lucros. O projeto não se consolida, mas mostra uma coisa importante: mesmo na crise, Seto continua procurando forma. Continua tentando inventar estrutura.

E, há um detalhe bonito nisso tudo: mesmo perto do colapso, Seto ainda aposta no futuro.

Em outubro de 1982, publica Robô Gigante e Super Pinóquio, revistas infantis com forte influência de Osamu Tezuka. Ele acreditava que o mangá ainda tomaria conta dos quadrinhos mundiais e que era preciso ocupar espaço antes disso acontecer. Mesmo ali, no aperto, Seto segue pensando adiante.

Mas, infelizmente, não bastou que Seto fosse um visionário dos mangás. Apesar de sonharmos com um futuro em que a Bico de Pena deu certo, o fato é que a Grafipar já estava dando seus últimos suspiros…

Em dezembro de 1982, a Grafipar publica Xanadu, sua última revista exclusiva de quadrinhos. Em julho de 1983, sai a última edição de Quadrinhos Eróticos. No mesmo ano, a Vila dos Quadrinistas deixa de existir e cada colaborador segue seu caminho.

ENCERRAMENTO

Na Edrel, Claudio Seto encontra um lugar para existir como autor.

Na Grafipar, ele não apenas encontra, mas constrói: constrói um lugar para que outros quadrinistas também existam.

Nessa fase, Seto não é apenas desenhista. Nem apenas editor. Nem apenas o nome que aparece nas capas. Ele vira articulador! Alguém capaz de reunir gente, organizar trabalho, enxergar possibilidades onde ainda sequer haviam formas prontas.

Curitiba… Grafipar… Vila dos Quadrinistas…

Partes de uma experiência concreta de construção.

E talvez seja por isso que o fim dessa fase não soe apenas como a quebra de uma editora… Soe como o esvaziamento de um pequeno mundo.

Um mundo que existiu…

Funcionou…

Mudou trajetórias…

E, depois, se desfez.

Ao se apagarem as luzes da Grafipar, para onde iria Claudio Seto, sua maior estrela??