EPISÓDIO 2 — Edrel, Seto e Minami — Os Pioneiros do Mangá no Brasil: de 1966 a 1974

Resumo do episódio

Episódio 2 — Nasce o autor

No fim dos anos 1960, Claudio Seto encontra na Edrel e em Minami Keizi o primeiro espaço real para viver de quadrinhos. Mas esse nascimento como autor já vem atravessado por mercado, erotismo, censura e cálculo de sobrevivência. Neste episódio, acompanhamos o momento em que o olhar de Seto vira sua assinatura — e o transforma em um dos quadrinistas pioneiros dos mangás no Brasil.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch

Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Antes de Claudio Seto se tornar um nome importante dos quadrinhos brasileiros, ele precisou fazer uma escolha bem concreta.

Não entre arte e não arte.

Mas, entre caminhos…

Em algum momento da juventude, ele chegou a ser procurado por Maurício de Sousa, que lhe ofereceu um estágio em troca da página de quadrinhos do veículo em que Seto trabalhava. Era uma possibilidade real… Um caminho mais seguro, talvez.

Mas ele recusou!

Já queria outra coisa…

Não apenas trabalhar com quadrinhos.

Queria existir como autor.

Aos 22 anos, com o traço mais maduro e já se considerando um profissional do desenho, ele aproveitaria a mala direta do Jornal do Lar, das antigas Lojas Arapuã, e incluiria no envio os endereços de várias editoras, para que editores vissem seus trabalhos.

Entre todos os destinos, havia um preferido: a Edrel, recém-entregue a um jovem nikkei chamado Minami Keizi.

A segunda fase da vida de Claudio Seto começa não com reconhecimento pronto, mas com uma ambição muito concreta: ele quer ser visto como alguém apto a explorar novos caminhos!

E, pela primeira vez, um novo caminho vai se abrir para ele!

BLOCO 1

Para entender o encontro de Seto com os quadrinhos, precisamos conhecer quem era o jovem editor que proporcionou o ambiente para que Seto se tornasse um dos pioneiros do mangá no Brasil.

Minami Keizi era da mesma geração de Seto. Também descendente de japoneses. Também vindo do interior paulista. Também apaixonado por mangás.

Aos 19 anos, foi sozinho para São Paulo, a capital do estado, acreditando que teria emprego garantido no mercado editorial.

O que aconteceu foi que descobriu outra coisa: que o mercado de quadrinhos, no Brasil, quase não existia!

Depois de muito trabalho, entrou na Pan-Juvenil, publicou Tupãzinho e o Álbum Encantado, considerado o primeiro mangá publicado no Brasil.

Pouco depois, a editora muda de nome, se tornando a Edrel. E Minami passa a procurar artistas para lançar ali.

No fim de 1966, ele encontra Claudio Seto.

E esse encontro é cercado de coincidências que o próprio Seto, mais tarde, trataria quase como coisa de destino. Os dois tinham afinidades demais! Chegaram até a ficar no mesmo lugar, na cidade de Lins. Quando Minami vai atrás dele, encontra Seto em um sábado à tarde, dormindo na mesma pensão em que costumava se hospedar!

Mas o mais forte desse encontro não é o acaso!

É o reconhecimento.

Seto encontra alguém que entende seu repertório artístico.

Minami encontra alguém que é TÃO apaixonado e influenciado pelos mangás quanto ele!

Depois do primeiro contato, Claudio Seto publica seu primeiro quadrinho na revista Garotas & Piadas, volume 6, ainda assinando como C ponto Seto e ainda trabalhando na Arapuã. Poucos meses depois, aos 23 anos, recebe de Minami a incumbência de produzir todo o material da revista Humor Negro número 4.

De promessa isolada, ele começa a virar presença real dentro da editora.

O desenho deixa de ser só vocação — e começa a virar lugar.

BLOCO 2

A partir daí, a vida acelera!

Quanto mais Seto desenha, mais trabalho Minami lhe dá! E isso produz uma mudança bem concreta: pela primeira vez, Claudio Seto pode viver, exclusivamente, do trabalho como quadrinista!

As vendas vão tão bem que a Edrel compra para Seto um fusca zero, cujas prestações seriam descontadas do que ainda tinha a receber pela produção. Mais do que um carro, esse fusca vira um sinal material de mudança de escala.

O quadrinho deixa, então, de ser aposta para se tornar sustento.

Para atender à demanda, Seto abre a empresa Seto Produções Artísticas, presta pequenos serviços de ilustração e, em pouco tempo, é convidado por Minami para coordenar um dos quatro grupos de artistas da editora.

Isso já nos dá spoilers do futuro!

O autor está nascendo.

Mas nasce junto com outras funções: organizar o trabalho, pensar a produção e transitar entre desenho e edição.

Em outras palavras, podemos dizer que foi na Edrel que Seto teve a chance de treinar suas habilidades de articulador artístico.

E, é nessa fase também, que aparecem alguns dos personagens mais memoráveis do autor!

Em 1968, Seto cria O Samurai, revista ambientada no Japão feudal e desenhada em estilo gekigá. E há um detalhe bonito nisso: o protagonista do primeiro volume se chama Chuji, o nome japonês que Seto recebeu do avô — como se, ao entrar de fato no circuito profissional, ele devolvesse para a página uma parte muito íntima da própria formação.

Entre 1968 e 1970, O Samurai teve 16 edições.

E, enquanto produzia O Samurai, Seto também criou outra personagem que se tornaria popular: em 1969, nasce a Maria Erótica. Primeiro, como coadjuvante de Beto Sonhador. Depois, em histórias avulsas. O sucesso foi tamanho que, em 1970, Minami decide criar uma revista exclusiva para a personagem.

E o contraste entre esses dois personagens ajuda a entender bem a fase.

De um lado, o samurai, o Japão feudal, a violência filosófica do gekigá!

Do outro, a repórter loira e cheia de curvas, desenhada para circular numa lógica editorial de erotismo crescente.

Não são dois Setos opostos.

São dois Setos trabalhando dentro do mesmo sistema. Tentando refinar uma linguagem num mercado que puxa em várias direções ao mesmo tempo.

Enquanto isso, a Edrel cresce! Em 1971, já tem estrutura de editora de médio porte, com gráfica, fotolito e equipe próprias. Promove um curso por correspondência, do qual Seto é um dos professores. A editora ganha tanta importância que consegue promover a primeira exposição brasileira só com quadrinistas nacionais!

Ao lado de Fernando Ikoma e Paulo Fukue, Seto integra o chamado “trio de ouro” da editora.

A essa altura, Seto começa a deixar de ser uma promessa para se tornar um dos pioneiros dos mangás no Brasil.

BLOCO 3

Só que havia um problema: o mesmo espaço que permite essa expansão, traz junto o atrito.

A lógica comercial da Edrel era simples: as revistas que vendessem 50% da tiragem—ou MENOS—eram canceladas! E, nesse cenário, o erotismo ganhava peso! Garotas & Piadas, herdada dos tempos da Pan-Juvenil, vendia bem. Minami melhora a publicação. Seto passa a criar fotonovelas e histórias em quadrinhos cada vez mais carregadas de erotismo!

Não, porque tinha abandonado o interesse por outras formas.

Mas, porque a sobrevivência editorial vai empurrando a produção nessa direção.

Ao mesmo tempo, o país endurece.

Em 1970, com o AI-5 em vigor, a Edrel entra na mira da guerra moral contra revistas eróticas e de cunho sexual. Oito títulos da editora aparecem em listas de censura da ditadura.

A pressão não é abstrata.

Ela mexe com a circulação!

Com a venda.

Com a imagem pública.

Com o risco!

É nesse ambiente que Seto aprende a sobreviver como artista: diante de um contexto em que criar, também significa calcular!

E Seto calcula.

Em Guaiçara, segue ampliando sua presença social. Estuda, participa de associações, se torna figura conhecida na cidade e, aos 25 anos, é eleito vereador com o MAIOR número de votos! Pouco antes disso, filia-se à ARENA, o partido conservador da época.

Anos mais tarde, ele afirmaria que se filiou à ARENA porque lhe aconselharam que era “o melhor lugar para se esconder de qualquer suspeita ideológica”. Desenhar quadrinhos eróticos e ser artista chamava a atenção dos censores — e ele preferia se preservar para poder continuar publicando.

Enquanto isso, a Edrel começa a se desgastar por dentro. Os sócios divergem. Planos vazam. A confiança se rompe. Em dezembro de 1971, Minami deixa a editora. Depois dele, Paulo Fukue assume, mas sai em 1972. Fernando Ikoma também parte no fim de 1973.

Seto é o mais longevo do trio. Permanece como quadrinista exclusivo até o começo de 1974.

Logo depois, a Edrel fecha as portas — e Seto se questiona se continuará produzindo quadrinhos.

ENCERRAMENTO

No primeiro episódio, acompanhamos o nascimento do olhar.

Neste, o que nasce é outra coisa.

Nascem assinatura… ofício… e possibilidade CONCRETA de viver de quadrinhos!

Mas TAMBÉM nasce o atrito!

Talvez seja isso que torne essa fase tão importante. Claudio Seto não encontra apenas um lugar para publicar. Encontra um sistema inteiro, com tudo o que ele tem a oferecer e cobrar.

Em 8 anos, Seto produziu milhares de páginas de quadrinhos — originais deixados para trás, com o fim da editora Edrel.

O caminho aberto por Minami Keizi transformou Claudio Seto em um autor — um dos pioneiros do mangá no Brasil!

Um autor que nasce sabendo, talvez cedo demais, que nem esforço e nem talento sozinhos são capazes de sustentar uma editora…

Mas, o que sustentaria uma editora de quadrinhos?!

Eis a pergunta que Seto tentaria responder na sua próxima fase de vida, em Curitiba.