EPISÓDIO 1 — Os anos de formação de Claudio Seto: de 1944 a 1965

Resumo do episódio

Episódio 1 — Nasce o olhar

Claudio Seto foi um menino formado por muitas camadas: o pós-guerra, a cultura japonesa, o convívio com o avô, os gibis, os mangás, o trabalho e a estrada. Neste episódio, acompanhamos seus anos de formação: desde os primeiros contatos com as narrativas gráficas até as pinturas de árvores e águias que ele fazia nas portas dos caminhões.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Claudio Seto nasceu no dia 22 de julho de 1944, em Guaiçara, no interior de São Paulo.

Foi registrado como Chuji Seto Takeguma. Mais tarde, ao ser catequizado e batizado para receber o diploma do primário, ganharia o nome pelo qual seria lembrado: Claudio. Em casa, entre familiares e vizinhos, também era chamado de Sechu.

Mais de um nome.

Mais de um idioma.

Mais de uma camada desde o começo.

Ele era o terceiro de onze filhos de Yoshie Seto e Yoshinori Takeguma. Cresceu, como muitas crianças nipo-brasileiras daquele tempo, entre o português e o japonês, entre o interior paulista e uma memória cultural que vinha de muito mais longe.

Talvez valha começar por aí.

Porque, no caso de Claudio Seto, o olhar parece nascer antes da obra. Antes da carreira. Antes do multiartista.

E nasce justamente dessa convivência entre mundos.

Na noite em que ele nasceu, o pai estava preso. Yoshinori viajava para vender o saquê produzido pela família quando foi detido por um suposto “crime de guerra”: o trem em que estava não havia parado numa cidade para carimbar a passagem e comprovar que ele havia passado por ali.

O episódio importa porque nos ajuda a entender o tempo em que Claudio Seto nasceu. Um Brasil em que o pós-guerra passaria a pesar sobre a vida cotidiana dos imigrantes japoneses e de seus filhos.

Esse é o pano de fundo.

Um pano de fundo que nos revela como Claudio Seto aprendeu a se reinventar, independentemente das circunstâncias.

A partir de agora, vamos acompanhar o momento em que um menino, criado entre memória, linguagem, trabalho e observação, começa a formar um jeito muito particular de perceber o mundo.

Antes do autor.

Antes das revistas.

Antes de Curitiba.

Antes dos quadrinhos.

Existe um menino.

E a pergunta deste episódio é simples:

como nasce o olhar desse menino?

BLOCO 1

A família Seto produzia saquê no Brasil com uma técnica trazida pelo avô materno, Noriyasu Seto.

O pai de Claudio, Yoshinori, fazia as viagens para vender a bebida nas cidades vizinhas, cheias de imigrantes japoneses. Mas a Segunda Grande Guerra tornava tudo mais difícil. A perseguição aos japoneses afetava o trabalho, a circulação e a rotina como um todo.

É nesse ambiente que o futuro artista nasce.

E é também aí que o avô começa a ganhar centralidade.

Foi Noriyasu quem deu ao neto o nome Chuji, numa mistura de homenagem e aposta. Segundo o próprio velho Seto, Chuji significava algo como “aquele que veio para unir”, ou um líder apaziguador. Havia ali também uma referência a Matsuo Bashô, o grande poeta do haicai.

O nome importa menos como profecia e mais como pista.

Porque Noriyasu não era apenas um avô afetuoso. Era uma figura de forte presença cultural e política na comunidade. Membro importante do Shindô Renmei, ele foi preso em 1946, sob risco de extradição. Na Ilha Anchieta, junto de outros líderes e intelectuais da colônia japonesa, participa da tentativa de registrar num dossiê toda a cultura nipônica, da cultura popular aos pensamentos metafísicos. É escolhido como escriba. Já trazia experiência como copista de sutras em templos budistas, antes de vir para o Brasil.

Isso ajuda a entender uma coisa importante.

Quando Claudio Seto cresce sob a influência do avô, ele não está recebendo apenas afeto familiar.

Está recebendo uma herança de linguagem.

Enquanto Noriyasu estava preso, Yoshinori assumiu o lugar de patriarca da casa. Temendo represálias, ele abandona a fábrica de saquê e a casa.

Claudio, com dois anos, e seu irmão mais velho Kuniomi, são levados para morar numa aldeia indígena em Ivaí, para se misturarem aos indígenas e ficarem protegidos até que a situação se acalmasse.

Não se sabe, ao certo, por quanto tempo eles ficaram lá.

Mas o fato já diz bastante: a formação de Seto começa cedo, muito cedo, na convivência com o deslocamento, com o improviso e com o atravessamento de culturas.

Algum tempo depois, a situação melhora e a família volta para casa.

Mas a casa já não era mais a mesma: a fábrica de saquê tinha sido destruída.

A família passa a buscar então outras formas de sobreviver, já que os produtos produzidos pelos japoneses passaram a ser malvistos.

Mas a vida precisava ser refeita e a cultura precisava ser perpetuada.

É aí que Noriyasu passa a exercer influência ainda mais forte sobre o neto.

Porque, de um lado, existe um Brasil hostil ao Japão do pós-guerra.

Do outro, dentro de casa, existe um avô ensinando kanji, pintura, bonsai, lendas.

No fundo, ensinando que uma cultura não vive só em grandes monumentos.

Ela vive também na maneira como uma mão segura um pincel.

Na maneira como um traço é repetido.

Na maneira como uma história é contada de novo.

BLOCO 2

É com o avô que Claudio aprende os primeiros traços de kanji! As primeiras pinceladas… O amor pelo bonsai! O gosto pelas lendas japonesas.

E, junto com isso tudo, uma intuição importante: que palavra, imagem e pensamento não existiam em compartimentos tão separados assim!

Essa intuição aparece com clareza numa lembrança de infância que Seto contaria mais tarde como a primeira vez que compreendeu a relação entre texto e imagem.

Ele tinha seis anos.

Brincava de bola de capotão com os outros dois irmãos no quarto do avô.

Em algum momento, a bola acertou o armário e despedaçou o espelho pendurado ali!

O que se espera, numa cena dessas, é uma bronca!

Mas Noriyasu responde de outro jeito.

Ele se coloca diante da porta de madeira e começa a desenhar, com um pequeno pincel e tinta branca. Faz surgir uma árvore de cerejeira em flor. Ao fundo, o Monte Fuji. Três aves…

E escreve o seguinte haicai:

Espelho quebrado;

Vaidade em cacos;

Eis que surge o Monte Fuji!

A força dessa cena está, justamente, no seu tamanho.

Ela é pequena.

É doméstica.

Quase mínima.

E, ao mesmo tempo, contém uma ideia inteira de arte.

O acidente não desaparece,

O espelho continua quebrado.

Mas a cena muda de sentido.

Anos depois, o próprio Seto diria que aquela interação entre texto, desenho e significado o impressionou profundamente, e que por muito tempo ficou com a ideia de que arte era justamente isso: a interação desses elementos.

Isso importa MUITO aqui.

Porque essa não é só uma boa lembrança de infância.

É quase uma pequena teoria de criação, em estado prático.

Depois disso, Claudio vira leitor de gibis—antes mesmo de aprender a ler. Comprava revistas de vendedores que passavam de trem pela estação, perto de sua casa. Colecionava as imagens antes de dominar o código inteiro.

O avô, por sua vez, em 1954, fez uma assinatura de mangás importados para os netos. Para o Velho Seto, mangá era arte! E também uma forma de manter viva a língua e a cultura japonesa.

Esses mangás seriam decisivos!

Entre as leituras que mais influenciariam Claudio Seto em seus quadrinhos estão Osamu Tezuka, Sanpei Shirato e Hideko Mizuno.

Mas aqui vale menos a lista de nomes… e mais o efeito que ela produziria no futuro.

Porque o menino do interior paulista crescia ligado a um circuito visual japonês que ainda nem existia aqui no Brasil.

A casa ensinava tradição.

O avô ensinava forma.

O trem trazia imagens…

E o menino aprendia a olhar…

Sem alarde.

Sem tese!

Com repetição; curiosidade; e atenção.

BLOCO 3

Só que esse olhar não se forma apenas na delicadeza da casa.

Ele também passa pelo trabalho.

Dos 10 aos 12 anos, Claudio Seto trabalhou na lavoura. Dos 12 aos 16, na retomada da fábrica de saquê do avô. Ao mesmo tempo, ia passando por diferentes escolas para concluir o primário. Depois, começou o ginásio em Lins, mas interrompeu os estudos antes de concluir.

A vida dele, nessa fase, é feita de deslocamentos, aprendizagem, e por muitos caminhos simultâneos.

Entre os 16 e os 19 anos, Seto se torna aprendiz do fotógrafo e pintor japonês Teisuke Kumasaka.

Com Kumasaka, ele não aprende só técnica de ateliê. Aprende fotografia! Aprende cor! Aprende arte abstrata!

Aprende uma sofisticação do olhar que, mais tarde, reapareceria em outras fases da sua trajetória.

Ou seja: o menino do kanji, do haicai e dos mangás também está se tornando um jovem atento à composição, à cor e à abstração.

Mas, talvez, a imagem mais viva dessa fase esteja em outro lugar: na estrada!

Seto trabalha como ajudante de caminhoneiro do primo Tetsuo Kumabe, que transportava tomates para a marca CICA. Enquanto o primo negociava, ele ficava cuidando da carga. E, sem muito o que fazer, Seto começa a pintar a porta do caminhão para passar o tempo.

Primeiro, como improviso.

Depois, como encomenda.

Naquela época, era comum pintar águias, frases e paisagens nos caminhões. O trabalho chama atenção. Surgem pedidos. Ele passa a virar noites em pontos de parada, pintando os caminhões de outros motoristas. O primo percebe o potencial, ajuda a arrumar clientes, e, durante um tempo, aquilo vira uma fonte importante de dinheiro para a família.

E esse trabalho diz muito sobre ele!

Seto parece encontrar superfície de criação em qualquer lugar!

Na porta de madeira.

Na página impressa.

Na lataria do caminhão.

No tecido.

Não é só vocação.

É disponibilidade para transformar prática em linguagem.

Mas a mãe intervém. Preocupada com o futuro do filho, convence Claudio a deixar a estrada e retomar os estudos. A família já havia se mudado para Sorocaba. Em 1965, ele conclui o ginasial na Escola Estadual de Votorantim, faz dois cursos de desenho por correspondência — um pela Escola Paulista de Artes e outro pela Escola Panamericana de Artes — e consegue uma vaga como desenhista aprendiz de Wilson Campos, numa estamparia de tecidos.

É aqui que o olhar começa a virar ofício…

Ainda não existe o autor publicado.

Ainda não existe a Edrel.

Ainda não existe o artista que vai circular por quadrinhos, jornalismo, pintura, bonsais, festivais e memória cultural.

Mas já existe uma DIREÇÃO.

ENCERRAMENTO

Quando a gente olha para os primeiros anos de Claudio Seto, talvez o mais interessante não seja procurar sinais de genialidade precoce.

Talvez seja—perceber—como esse olhar foi sendo composto.

Por uma família japonesa no interior de São Paulo.

Pelo pós-guerra.

Pelo avô que escrevia, pintava e cultivava bonsais!

Pelos gibis comprados no trem…

Pelos mangás que chegavam do Japão!

Pela lavoura.

Pela fábrica de saquê.

Pela fotografia.

Pela estrada…

Pelo trabalho.

Antes do multiartista, houve isso: um menino crescendo entre linguagens.

E talvez seja por isso que, mais tarde, Claudio Seto tenha conseguido circular por tantos mundos com tamanha flexibilidade e abertura!

Porque seu olhar já tinha nascido assim: misturado… paciente… em movimento.

O resto viria depois!