Anos de formação e pioneirismo nos mangás brasileiros

Claudio Seto (1944-2008) teve sua trajetória moldada pela pluralidade de experiências que marcaram sua infância e juventude. Nascido em Guaiçara, interior de São Paulo, em 22 de julho de 1944, Seto cresceu entre duas culturas, absorvendo desde cedo os ensinamentos japoneses transmitidos pelo avô, Noriyasu Seto, um influente membro da comunidade nipônica e figura central na sua formação artística. A influência do avô foi fundamental não apenas na introdução às artes tradicionais japonesas, como o shodô, mas também na formação de uma consciência cultural e histórica marcada pelos desafios enfrentados pelos imigrantes japoneses no Brasil após a Segunda Guerra Mundial.

Seto se tornou quadrinista profissional na segunda metade dos anos 1960, quando ingressou na Editora Edrel, comandada pelo visionário Minami Keizi. A editora foi pioneira na publicação de quadrinhos nacionais com influência direta dos mangás japoneses, tornando-se um espaço fértil para Seto desenvolver e consolidar sua identidade artística. Com Minami, Seto encontrou afinidades que iam além do profissional, permeadas por uma conexão quase mística e um entendimento profundo das dificuldades e possibilidades dos quadrinhos autorais no Brasil daquela época.

Durante seu período na Edrel, Seto produziu intensamente, criando personagens icônicos e histórias que desafiavam convenções. Entre suas criações mais famosas estão a personagem Maria Erótica, símbolo da ousadia editorial em plena ditadura militar, e O Samurai, série que unia uma narrativa histórica e filosófica à violência gráfica característica do gênero gekigá. Seto explorava não apenas a estética mangá, mas também temáticas psicológicas, sociais e existenciais.

No entanto, o contexto político brasileiro dos anos 1970 apresentou grandes desafios. Com a repressão e censura instauradas pelo AI-5, a Edrel sofreu constantes ameaças, enfrentando limitações severas na distribuição e produção de conteúdo. Apesar disso (ou talvez por causa disso) Seto e a editora prosperaram por um período, aproveitando-se ironicamente do aumento da demanda por publicações proibidas, numa resistência implícita à censura. O artista tornou-se referência nacional, reconhecido não só pela qualidade técnica, mas pela ousadia de suas histórias.

A saída de Minami Keizi da Edrel em 1972 marcou também uma transformação significativa para Seto. Em 1974, já reconhecido e estabelecido como quadrinista, ele se viu novamente em busca de novos horizontes, desta vez não mais apenas artísticos, mas também pessoais e geográficos. Foi nesse contexto que, em 1975, Seto iniciou uma nova fase de sua vida ao mudar-se para Curitiba — o que ele não sabia é que essa mudança o consolidaria definitivamente como um dos grandes nomes dos quadrinhos brasileiros.