Em fevereiro de 1975 os recém-casados Mitsue Kawahara e Claudio Seto deixam a cidade de Guaiçara e iniciam uma viagem de lua-de-mel atravessando quatro estados brasileiros em direção ao sul do continente. Ao atingirem a fronteira com o Uruguai, eles decidem fazer o caminho de volta pelo litoral — mas, ao chegarem em Matinhos, percebem que o dinheiro havia acabado. Eles então decidem se hospedar em Curitiba, na madrugada fria do dia 17 de julho. Poucas horas depois, eles testemunham uma Curitiba coberta pelo branco da neve, com pessoas felizes festejando o raro evento. Ao ser tão bem acolhido, Seto concluiu que Curitiba é uma espécie de Tonguenkyo — um paraíso mitológico japonês — uma descoberta tão impactante que o fez decidir estabelecer-se permanentemente na capital paranaense.
Depois de alguns anos trabalhando com conteúdo audiovisual para o IPAG (antigo nome do Sebrae), Seto descobriu que a editora Grafipar, sediada em Curitiba, havia lançado uma revista erótica com características muito semelhantes às suas criações anteriores na Edrel. Encorajado por essa descoberta, ele enviou seu material para Faruk El Khatib, editor-chefe da Grafipar, propondo um novo projeto editorial que aproveitasse sua experiência e criatividade na produção de quadrinhos autorais e ousados.
Durante sua atuação na Grafipar, Seto não apenas produziu centenas de páginas de quadrinhos, como também se destacou pelo seu talento na coordenação editorial, supervisionando equipes de artistas e redatores. Seto defendia firmemente a valorização dos quadrinistas nacionais, sempre buscando criar espaços para novas vozes e talentos emergentes. De 1980 a 1983 chegou a organizar a Vila dos Quadrinistas, um conjunto de casas localizado no bairro São Brás no qual quadrinistas de outros estados brasileiros vinham morar para trabalhar exclusivamente para a Grafipar.
No entanto, o sucesso e a popularidade das revistas da Grafipar não escaparam à atenção das autoridades censórias do regime militar, que ainda exercia forte controle sobre publicações consideradas subversivas ou imorais. Graças aos contatos de Faruk, a editora conseguiu contornar diversas restrições, mantendo sua produção constante e, paradoxalmente, se beneficiando da crescente demanda por revistas eróticas como forma de resistência velada à censura imposta pela ditadura.
Infelizmente a Grafipar não resistiu às crises econômica e política enfrentadas pelo país na década de 1980. A inflação galopante, em conjunto com investimentos mal-sucedidos de Faruk levaram a editora à falência, dando fim a um dos experimentos mais interessantes dos quadrinhos brasileiros. Nas palavras do próprio Seto, se a Grafipar não tivesse “ido pro brejo”, a história do mangá no Brasil teria sido outra.
