Textos – Claudio Seto https://claudioseto.com.br obra, trajetória e legado Thu, 30 Apr 2026 19:18:35 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://claudioseto.com.br/wp-content/uploads/2026/04/claudioseto_setograma-150x150.jpg Textos – Claudio Seto https://claudioseto.com.br 32 32 Claudio Seto: O Samurai agitador de Curitiba https://claudioseto.com.br/claudio-seto-o-samurai-agitador-de-curitiba/ Thu, 30 Apr 2026 19:18:29 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=491

A história que vou contar é uma entre muitas que se pode contar sobre Claudio Seto. Ele, um ser iluminado, ajudou tantos quanto pôde durante a vida — e continua unindo as pessoas onde quer que esteja. Foi inúmeros em um só, desde o compenetrado bonsaísta até o excêntrico mago; mas nacionalmente é conhecido como o primeiro mangaká (desenhista de quadrinhos em estilo japonês) a publicar mangás no Brasil — antes mesmo de serem publicados títulos japoneses em terras tupiniquins, dizem.

No entanto, em Curitiba, Seto deixou uma marca especial: na cidade em que nasci, ele é lembrado pela alcunha de agitador cultural — mais especificamente da agitador da cultura japonesa.

Claudio Seto chegou a Curitiba em 17 de julho de 1975, no “dia da neve”. Quase que exatos onze anos antes de eu nascer, Seto desembarcou logo cedo numa cidade em festa, com as famílias brincando em meio aos flocos brancos acumulados nos para-brisas dos carros e nos jardins. As pessoas celebravam, se abraçavam e cumprimentavam umas às outras. Foi nesse clima de festa que ele e Mitsue, sua esposa, se aproximaram de um bar para pedir uma bebida quente. O dono do bar os recebeu de braços abertos, em êxtase por ver a neve pela primeira vez. Seto pediu um Steinhäger; o dono do bar puxou uma garrafa, encheu o copo e entregou uma dose, como que a um amigo de longa data, dizendo que não era preciso pagar.

Ao ser tão bem recebido na cidade em que acabara de chegar, Seto não teve dúvida: acreditou que havia encontrado o “Paraíso na Terra” e escolheu Curitiba como sua nova morada.

O clima hospitaleiro de fato contrastava com o que ele tinha vivido dois anos antes, em meio à ditadura militar. Com o fechamento da editora Edrel, de São Paulo, devido à censura, Seto havia desistido de produzir histórias em quadrinhos e estava em busca de um novo ganha-pão. O que ele não esperava, ao chegar na cidade, é que em breve Curitiba realmente seria um pequeno “Paraíso na Terra” — tanto para Seto quanto para os outros artistas que tiveram a oportunidade de trabalhar na editora Grafipar.

Seto não só não parou de desenhar histórias em quadrinhos como vestiu a camisa de editor e auxiliou muitos artistas dentro e fora da editora. Era Seto quem recebia e acomodava os ilustradores que vinham de outras cidades para trabalhar na Grafipar, como Carlos Magno, Gustavo Machado, Franco de Rosa, Watson Portela e Itamar, formando com eles a Vila dos Quadrinistas, localizada perto da casa de Seto, no bairro São Brás.

Foram quase dez anos de ouro na produção de histórias em quadrinhos, nos quais muitas vezes Seto teve a função de editor. No entanto, com o fechamento da Grafipar, em 1984, Seto se distanciou cada vez mais da produção de quadrinhos. Seu último trabalho no gênero foi História de Curitiba em quadrinhos, publicado em 1993.

Foi mais ou menos nessa época que, envolvido com as questões políticas da cidade, Seto se transformou em uma ponte entre a comunidade japonesa e o poder público. Foi por causa dele que a Praça do Japão deixou de ser um projeto para se tornar realidade e as festas juninas, que aconteciam dentro do Nikkei Clube, se transformaram nos festivais japoneses Imin Matsuri e Haru Matsuri — que, em poucos anos, se tornariam um símbolo da cultura japonesa em Curitiba.

Em 2006, eu conhecia apenas parte da fama de Seto. Sabia que ele tinha sido um grande quadrinista e que trabalhava no jornal O Estado do Paraná. No entanto, a figura que eu encontraria em breve seria outra; ainda mais esotérica e taciturna do que eu poderia esperar.

Já havia visto Seto em algum matsuri quando liguei para ele pedindo uma entrevista. Na época, eu era uma estudante de jornalismo fazendo um trabalho para a matéria de rádio. Como contumaz admiradora do Japão, convenci meu grupo a utilizar a temática japonesa no trabalho. Assim, elaboramos uma série de programas chamada “Estação Anime” e incluímos a tal entrevista nela.

Encontrei o Seto no estacionamento da PUCPR numa manhã de maio. Lembro-me que o sol começava a criar força quando o vi. Meio sem saber como conversar com um artista que eu admirava, contei que o campus de rádio e TV ficava ali perto, expliquei o caminho e avisei que nos encontraríamos lá.

Foi quando ele sugeriu para irmos juntos, no carro dele.

Seu carro era branco (um fiesta?), popular, simples. Sentei-me ao seu lado, no banco de passageiro e, apesar de nervosa (estava ao lado de um grande artista!), a energia ali era boa, tranquilizadora. Em pouco tempo, eu descobriria que essa era a sensação que todos tinham quando Seto estava por perto: uma alegria leve e descontraída, de quem vive com o coração aberto.

O caminho também foi emocionante: assim como era um tanto intransigente na vida, era também ao dirigir; mas sobrevivemos.

Ao fim da entrevista, pedi algo que, segundos depois, descobri que era uma gafe: que Seto desenhasse caricaturas nossas. Mesmo comentando que não fazia mais caricaturas, ele desenhou cada uma de nós — éramos três, no total — em papéis tamanho A6, e nos entregou. Foi a primeira e única vez que pedi caricaturas de graça para um ilustrador.

O que poderia ser um contato pontual tornou-se o início de uma amizade. No mês seguinte, durante o Imin Matsuri, num desses perrengues da vida, pedi ajuda a ele e a Mitsue para vender os botons de anime que eu havia produzido. Mesmo sem saber direito o que eram botons, eles não só expuseram os produtos em sua barraca durante toda a feira, como ficaram vendendo sem me pedir nada em troca.

Sem saber, eu tinha sido acolhida pelo Seto assim como foram tantos artistas antes de mim. E, sendo sincera, eu precisava ser acolhida.

Foi através do Seto que, nos meses seguintes, conheci outras tantas pessoas que fazem parte da minha vida japonesa: Claudia Suemi, Yurie Handa, Maria Helena Uyeda, Yuuichi Oshima, Chuniti Kawamura, Akiyoshi Oeda; todos pedacinhos do zembatsuru que teríamos que construir depois que Seto nos deixasse.

Mas antes que nossa amizade fosse interrompida pela brevidade da vida, participei da organização de vários festivais japoneses, muitas vezes como representante da cultura pop japonesa — uma área bastante defendida por ele. Seto entendia como ninguém que a cultura é uma manifestação popular e, portanto, é mutável. Ele tinha, pela cultura pop, o mesmo respeito que pela cultura tradicional, sendo uma figura apaziguadora de conflitos de geração.

Mesmo que fosse irritado, humilhado ou contrariado, ele possuía sabedoria para manter-se firme e lidar com as adversidades. Lembro-me de uma conversa, no restaurante do hotel Hara, sobre a liberação de verba para pagar os organizadores (no caso, quase todos os nomes que citei acima) do Imin 100, o festival em comemoração ao centenário da imigração japonesa no Brasil, realizado em junho de 2008. Apesar do cabo de guerra e da defesa de que “trabalha-se de graça pela comunidade japonesa”, Seto, mesmo contrariado, não deixou que a irritação o dominasse.

Em outubro de 2008, um mês antes dele partir, vesti um kimono pela primeira vez e subi ao palco. Quanto mais conhecia sobre o Seto, mais o admirava, então decidi homenageá-lo durante o Haru Matsuri. Apesar da timidez e do receio da exposição excessiva, me coloquei diante de um microfone aberto para o público do festival e li o texto que havia escrito dias antes, falando sobre a trajetória artística do Seto. Ele sorria com o olhar, como se soubesse mais do que todos os presentes.

No dia 15 de novembro, Claudio Seto sofreu um AVC e nos deixou.

Entrevistei-o em outras ocasiões. Dentre as várias perguntas para a minha monografia sobre festivais japoneses em Curitiba, não resisti em sanar uma curiosidade:

— Seto, por que você desistiu de fazer histórias em quadrinhos?

— Porque não dá dinheiro.

Eis um conselho que não ouvi. Sete anos depois que ele nos deixou, publiquei minha primeira história em quadrinhos, chamada A Samurai. Nela, criei o personagem Mestre Seto, o mentor da protagonista Michiko — uma pequena demonstração de que ainda vibra em mim tudo o que aprendi com o Samurai (agitador cultural) de Curitiba.

escrito em 2022, por Mylle Pampuch e disponível no site da Fundação Cultural de Curitiba

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Anos de formação e pioneirismo nos mangás brasileiros https://claudioseto.com.br/anos-de-formacao-e-pioneirismo-nos-mangas-brasileiros/ Thu, 30 Apr 2026 17:06:12 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=426

Claudio Seto (1944-2008) teve sua trajetória moldada pela pluralidade de experiências que marcaram sua infância e juventude. Nascido em Guaiçara, interior de São Paulo, em 22 de julho de 1944, Seto cresceu entre duas culturas, absorvendo desde cedo os ensinamentos japoneses transmitidos pelo avô, Noriyasu Seto, um influente membro da comunidade nipônica e figura central na sua formação artística. A influência do avô foi fundamental não apenas na introdução às artes tradicionais japonesas, como o shodô, mas também na formação de uma consciência cultural e histórica marcada pelos desafios enfrentados pelos imigrantes japoneses no Brasil após a Segunda Guerra Mundial.

Seto se tornou quadrinista profissional na segunda metade dos anos 1960, quando ingressou na Editora Edrel, comandada pelo visionário Minami Keizi. A editora foi pioneira na publicação de quadrinhos nacionais com influência direta dos mangás japoneses, tornando-se um espaço fértil para Seto desenvolver e consolidar sua identidade artística. Com Minami, Seto encontrou afinidades que iam além do profissional, permeadas por uma conexão quase mística e um entendimento profundo das dificuldades e possibilidades dos quadrinhos autorais no Brasil daquela época.

Durante seu período na Edrel, Seto produziu intensamente, criando personagens icônicos e histórias que desafiavam convenções. Entre suas criações mais famosas estão a personagem Maria Erótica, símbolo da ousadia editorial em plena ditadura militar, e O Samurai, série que unia uma narrativa histórica e filosófica à violência gráfica característica do gênero gekigá. Seto explorava não apenas a estética mangá, mas também temáticas psicológicas, sociais e existenciais.

No entanto, o contexto político brasileiro dos anos 1970 apresentou grandes desafios. Com a repressão e censura instauradas pelo AI-5, a Edrel sofreu constantes ameaças, enfrentando limitações severas na distribuição e produção de conteúdo. Apesar disso (ou talvez por causa disso) Seto e a editora prosperaram por um período, aproveitando-se ironicamente do aumento da demanda por publicações proibidas, numa resistência implícita à censura. O artista tornou-se referência nacional, reconhecido não só pela qualidade técnica, mas pela ousadia de suas histórias.

A saída de Minami Keizi da Edrel em 1972 marcou também uma transformação significativa para Seto. Em 1974, já reconhecido e estabelecido como quadrinista, ele se viu novamente em busca de novos horizontes, desta vez não mais apenas artísticos, mas também pessoais e geográficos. Foi nesse contexto que, em 1975, Seto iniciou uma nova fase de sua vida ao mudar-se para Curitiba — o que ele não sabia é que essa mudança o consolidaria definitivamente como um dos grandes nomes dos quadrinhos brasileiros.

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O Tonguenkyo de Seto na Editora Grafipar https://claudioseto.com.br/o-tonguenkyo-de-seto-na-editora-grafipar/ Thu, 30 Apr 2026 17:05:11 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=442

Em fevereiro de 1975 os recém-casados Mitsue Kawahara e Claudio Seto deixam a cidade de Guaiçara e iniciam uma viagem de lua-de-mel atravessando quatro estados brasileiros em direção ao sul do continente. Ao atingirem a fronteira com o Uruguai, eles decidem fazer o caminho de volta pelo litoral — mas, ao chegarem em Matinhos, percebem que o dinheiro havia acabado. Eles então decidem se hospedar em Curitiba, na madrugada fria do dia 17 de julho. Poucas horas depois, eles testemunham uma Curitiba coberta pelo branco da neve, com pessoas felizes festejando o raro evento. Ao ser tão bem acolhido, Seto concluiu que Curitiba é uma espécie de Tonguenkyo — um paraíso mitológico japonês — uma descoberta tão impactante que o fez decidir estabelecer-se permanentemente na capital paranaense.

Depois de alguns anos trabalhando com conteúdo audiovisual para o IPAG (antigo nome do Sebrae), Seto descobriu que a editora Grafipar, sediada em Curitiba, havia lançado uma revista erótica com características muito semelhantes às suas criações anteriores na Edrel. Encorajado por essa descoberta, ele enviou seu material para Faruk El Khatib, editor-chefe da Grafipar, propondo um novo projeto editorial que aproveitasse sua experiência e criatividade na produção de quadrinhos autorais e ousados. 

Durante sua atuação na Grafipar, Seto não apenas produziu centenas de páginas de quadrinhos, como também se destacou pelo seu talento na coordenação editorial, supervisionando equipes de artistas e redatores. Seto defendia firmemente a valorização dos quadrinistas nacionais, sempre buscando criar espaços para novas vozes e talentos emergentes. De 1980 a 1983 chegou a organizar a Vila dos Quadrinistas, um conjunto de casas localizado no bairro São Brás no qual quadrinistas de outros estados brasileiros vinham morar para trabalhar exclusivamente para a Grafipar. 

No entanto, o sucesso e a popularidade das revistas da Grafipar não escaparam à atenção das autoridades censórias do regime militar, que ainda exercia forte controle sobre publicações consideradas subversivas ou imorais. Graças aos contatos de Faruk, a editora conseguiu contornar diversas restrições, mantendo sua produção constante e, paradoxalmente, se beneficiando da crescente demanda por revistas eróticas como forma de resistência velada à censura imposta pela ditadura.

Infelizmente a Grafipar não resistiu às crises econômica e política enfrentadas pelo país na década de 1980. A inflação galopante, em conjunto com investimentos mal-sucedidos de Faruk levaram a editora à falência, dando fim a um dos experimentos mais interessantes dos quadrinhos brasileiros. Nas palavras do próprio Seto, se a Grafipar não tivesse “ido pro brejo”, a história do mangá no Brasil teria sido outra.

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Jornalista, chargista, redator e artista plástico https://claudioseto.com.br/jornalista-chargista-redator-e-artista-plastico/ Thu, 30 Apr 2026 17:04:47 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=444

Após o encerramento da Grafipar, em 1984, Claudio Seto mais uma vez se viu diante do desafio de se reinventar. Se antes a crise no mercado editorial o levara a buscar novos caminhos, agora seria a imprensa diária de Curitiba que abriria as portas para uma nova etapa de sua carreira. Sua estreia no jornalismo ocorreu em março de 1985 no Correio de Notícias, veículo no qual atuou não apenas como ilustrador, mas também como chargista, fotógrafo e redator. Paralelamente, assumiu a página Programe-se (depois Vernissage), dedicada às artes plásticas, e a coluna Oriente-se, focada na cultura japonesa, refletindo seu duplo engajamento cultural.

Mesmo enquanto fazia quadrinhos, Seto se dedica às artes plásticas — mas, com o fim da Grafipar, ele passa a investir cada vez mais em mostras e exposições, ganhando reconhecimento de parte da cena artística e recebendo prêmios na área. No entanto, por ter trabalhado nas décadas anteriores como quadrinistas de HQs eróticas, o artista enfrenta o preconceito daqueles que não viam a arte como um fenômeno plural, independente de hierarquias como “alta cultura” e produção popular. Apesar do foco jornalístico, manteve vínculos com os quadrinhos: recebeu o Troféu Angelo Agostini (1988) como “Mestre do Quadrinho Nacional” e republicou HQs da fase Grafipar no encarte Revista Policial

Com o fim do jornal Correio de Notícias, em março de 1995, Seto é imediatamente contratado como ilustrador dos jornais Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná. Entre ilustrações e charges, um terceiro trabalho chama a atenção: as reconstituições de crimes em HQ produzidas para serem publicadas nas capas da Tribuna do Paraná. De 1995 a 2006, Seto produziu 357 HQs para o jornal, todas impressas em locais de destaque — dando a ele visibilidade constante na paisagem urbana de Curitiba.

Já a coluna Oriente-se deriva no Jornal do Nikkei, completamente gerido por Seto após o encerramento do Correio de Notícias. A publicação se estabelece como o principal veículo da comunica nippo-curitibana, no qual são publicadas fotos, notícias sobre eventos da comunidade e curiosidades sobre a cultura japonesa, como as versões dos Mukashi Banashi, lendas japonesas da tradição oral adaptadas e difundidas por Seto.

Em sua última fase, o Jornal do Nikkei é rebatizado como Planeta Zen, e se torna amplamente conhecido na cidade de Curitiba por ter sido distribuído ao longo dos anos nos festivais japoneses Imin Matsuri e Haru Matsuri. Além das edições para a comunidade, Seto produzia edições especiais do Planeta Zen para os eventos, sempre destacando a programação cultural do palco e o cardápio da grandiosa praça de alimentação.

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É bonsai pra todo lado https://claudioseto.com.br/e-bonsai-pra-todo-lado/ Thu, 30 Apr 2026 17:03:58 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=446

Em 2002, Seto cultiva mais de 500 bonsais no seu jardim. Cuidar das árvores em miniatura era sua primeira tarefa do dia — um dia que começa por volta das 10h, como ele mesmo sugere no discurso que fez em 2007, ao receber o diploma de cidadão honorário de Curitiba. Se trabalhar como ilustrador para os jornais Tribuna do Paraná e O Estado do Paraná pagam suas contas, trabalhar pela comunidade japonesa é o que move sua alma. 

Os quadrinhos ficam para trás, mesmo ele declarando vez ou outra que voltará a fazê-los. As artes plásticas, também. Seto se torna um consultor de cultura japonesa, de bonsaísmo, um pesquisador ávido sobre a imigração. Sua vida está na comunidade de descendentes e admiradores daquele país que sempre esteve tão longe no mapa, mas tão perto dele em presença. 

No início da década de 1990, ele participa da idealização do Memorial da Imigração Japonesa — inicialmente pensado como um Memorial do Haikai — junto com Alice Ruiz. Esse memorial é “apenas” a construção em estilo japonês localizada na Praça do Japão, hoje um dos símbolos da cidade. A pagoda (esse é o nome da construção), foi inaugurada em 1993, mesmo ano em que Seto publica sua última HQ de fôlego: História de Curitiba em Quadrinhos, em coautoria com a professora Cassiana Lacerda. E é um ano antes, que ele e o então presidente do Nikkei Curitiba Rui Hara transformam as festas juninas internas do clube em festivais japoneses abertos para toda a população.

O esforço de Seto em difundir a cultura japonesa se transforma em livros. Depois de 10 anos de pesquisa sobre a imigração japonesa no Paraná, ele e a jornalista Maria Helena Uyeda lançam o livro Ayumi – caminhos percorridos em 2002. Em 2008, Seto lança Lendas trazidas pelos imigrantes do Japão, no qual reúne algumas das muitas histórias da tradição oral adaptadas e ilustradas por ele. Já em 2009, é lançado Bushidô – caminho do guerreiro semeador: 100 anos de presença japonesa no Paraná, uma continuação da pesquisa iniciada por ele e Uyeda.

Mas voltemos à 2008, o ano do centenário da imigração japonesa no Brasil. Houve muita comemoração, mas Seto sempre disse que a festa deveria durar um ano inteiro, começando no dia 18 de junho e só terminando em 18 de junho de 2009. Infelizmente, ele não viu o final da festa. Saiu de fininho no dia 16 de novembro, deixando essas e tantas outras obras e histórias para nos encantar. Tornou-se parte do imaginário da nossa cidade: reverbera cada vez que lemos uma HQ independente, passamos pela Praça do Japão ou comemos um yakissoba no matsuri. Tal qual um mestre zen, Seto deixou as pistas para seguirmos: a arte sem hierarquias, a generosidade com as pessoas e o desapego ao que já não faz sentido. 

Kanpai! Banzai! 

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