Podcast – Claudio Seto https://claudioseto.com.br obra, trajetória e legado Thu, 30 Apr 2026 18:58:54 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://claudioseto.com.br/wp-content/uploads/2026/04/claudioseto_setograma-150x150.jpg Podcast – Claudio Seto https://claudioseto.com.br 32 32 EPISÓDIO 1 — Os anos de formação de Claudio Seto: de 1944 a 1965 https://claudioseto.com.br/episodio-1-os-anos-de-formacao-de-claudio-seto-de-1944-a-1965/ Thu, 30 Apr 2026 17:53:24 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=458

Resumo do episódio

Episódio 1 — Nasce o olhar

Claudio Seto foi um menino formado por muitas camadas: o pós-guerra, a cultura japonesa, o convívio com o avô, os gibis, os mangás, o trabalho e a estrada. Neste episódio, acompanhamos seus anos de formação: desde os primeiros contatos com as narrativas gráficas até as pinturas de árvores e águias que ele fazia nas portas dos caminhões.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Claudio Seto nasceu no dia 22 de julho de 1944, em Guaiçara, no interior de São Paulo.

Foi registrado como Chuji Seto Takeguma. Mais tarde, ao ser catequizado e batizado para receber o diploma do primário, ganharia o nome pelo qual seria lembrado: Claudio. Em casa, entre familiares e vizinhos, também era chamado de Sechu.

Mais de um nome.

Mais de um idioma.

Mais de uma camada desde o começo.

Ele era o terceiro de onze filhos de Yoshie Seto e Yoshinori Takeguma. Cresceu, como muitas crianças nipo-brasileiras daquele tempo, entre o português e o japonês, entre o interior paulista e uma memória cultural que vinha de muito mais longe.

Talvez valha começar por aí.

Porque, no caso de Claudio Seto, o olhar parece nascer antes da obra. Antes da carreira. Antes do multiartista.

E nasce justamente dessa convivência entre mundos.

Na noite em que ele nasceu, o pai estava preso. Yoshinori viajava para vender o saquê produzido pela família quando foi detido por um suposto “crime de guerra”: o trem em que estava não havia parado numa cidade para carimbar a passagem e comprovar que ele havia passado por ali.

O episódio importa porque nos ajuda a entender o tempo em que Claudio Seto nasceu. Um Brasil em que o pós-guerra passaria a pesar sobre a vida cotidiana dos imigrantes japoneses e de seus filhos.

Esse é o pano de fundo.

Um pano de fundo que nos revela como Claudio Seto aprendeu a se reinventar, independentemente das circunstâncias.

A partir de agora, vamos acompanhar o momento em que um menino, criado entre memória, linguagem, trabalho e observação, começa a formar um jeito muito particular de perceber o mundo.

Antes do autor.

Antes das revistas.

Antes de Curitiba.

Antes dos quadrinhos.

Existe um menino.

E a pergunta deste episódio é simples:

como nasce o olhar desse menino?

BLOCO 1

A família Seto produzia saquê no Brasil com uma técnica trazida pelo avô materno, Noriyasu Seto.

O pai de Claudio, Yoshinori, fazia as viagens para vender a bebida nas cidades vizinhas, cheias de imigrantes japoneses. Mas a Segunda Grande Guerra tornava tudo mais difícil. A perseguição aos japoneses afetava o trabalho, a circulação e a rotina como um todo.

É nesse ambiente que o futuro artista nasce.

E é também aí que o avô começa a ganhar centralidade.

Foi Noriyasu quem deu ao neto o nome Chuji, numa mistura de homenagem e aposta. Segundo o próprio velho Seto, Chuji significava algo como “aquele que veio para unir”, ou um líder apaziguador. Havia ali também uma referência a Matsuo Bashô, o grande poeta do haicai.

O nome importa menos como profecia e mais como pista.

Porque Noriyasu não era apenas um avô afetuoso. Era uma figura de forte presença cultural e política na comunidade. Membro importante do Shindô Renmei, ele foi preso em 1946, sob risco de extradição. Na Ilha Anchieta, junto de outros líderes e intelectuais da colônia japonesa, participa da tentativa de registrar num dossiê toda a cultura nipônica, da cultura popular aos pensamentos metafísicos. É escolhido como escriba. Já trazia experiência como copista de sutras em templos budistas, antes de vir para o Brasil.

Isso ajuda a entender uma coisa importante.

Quando Claudio Seto cresce sob a influência do avô, ele não está recebendo apenas afeto familiar.

Está recebendo uma herança de linguagem.

Enquanto Noriyasu estava preso, Yoshinori assumiu o lugar de patriarca da casa. Temendo represálias, ele abandona a fábrica de saquê e a casa.

Claudio, com dois anos, e seu irmão mais velho Kuniomi, são levados para morar numa aldeia indígena em Ivaí, para se misturarem aos indígenas e ficarem protegidos até que a situação se acalmasse.

Não se sabe, ao certo, por quanto tempo eles ficaram lá.

Mas o fato já diz bastante: a formação de Seto começa cedo, muito cedo, na convivência com o deslocamento, com o improviso e com o atravessamento de culturas.

Algum tempo depois, a situação melhora e a família volta para casa.

Mas a casa já não era mais a mesma: a fábrica de saquê tinha sido destruída.

A família passa a buscar então outras formas de sobreviver, já que os produtos produzidos pelos japoneses passaram a ser malvistos.

Mas a vida precisava ser refeita e a cultura precisava ser perpetuada.

É aí que Noriyasu passa a exercer influência ainda mais forte sobre o neto.

Porque, de um lado, existe um Brasil hostil ao Japão do pós-guerra.

Do outro, dentro de casa, existe um avô ensinando kanji, pintura, bonsai, lendas.

No fundo, ensinando que uma cultura não vive só em grandes monumentos.

Ela vive também na maneira como uma mão segura um pincel.

Na maneira como um traço é repetido.

Na maneira como uma história é contada de novo.

BLOCO 2

É com o avô que Claudio aprende os primeiros traços de kanji! As primeiras pinceladas… O amor pelo bonsai! O gosto pelas lendas japonesas.

E, junto com isso tudo, uma intuição importante: que palavra, imagem e pensamento não existiam em compartimentos tão separados assim!

Essa intuição aparece com clareza numa lembrança de infância que Seto contaria mais tarde como a primeira vez que compreendeu a relação entre texto e imagem.

Ele tinha seis anos.

Brincava de bola de capotão com os outros dois irmãos no quarto do avô.

Em algum momento, a bola acertou o armário e despedaçou o espelho pendurado ali!

O que se espera, numa cena dessas, é uma bronca!

Mas Noriyasu responde de outro jeito.

Ele se coloca diante da porta de madeira e começa a desenhar, com um pequeno pincel e tinta branca. Faz surgir uma árvore de cerejeira em flor. Ao fundo, o Monte Fuji. Três aves…

E escreve o seguinte haicai:

Espelho quebrado;

Vaidade em cacos;

Eis que surge o Monte Fuji!

A força dessa cena está, justamente, no seu tamanho.

Ela é pequena.

É doméstica.

Quase mínima.

E, ao mesmo tempo, contém uma ideia inteira de arte.

O acidente não desaparece,

O espelho continua quebrado.

Mas a cena muda de sentido.

Anos depois, o próprio Seto diria que aquela interação entre texto, desenho e significado o impressionou profundamente, e que por muito tempo ficou com a ideia de que arte era justamente isso: a interação desses elementos.

Isso importa MUITO aqui.

Porque essa não é só uma boa lembrança de infância.

É quase uma pequena teoria de criação, em estado prático.

Depois disso, Claudio vira leitor de gibis—antes mesmo de aprender a ler. Comprava revistas de vendedores que passavam de trem pela estação, perto de sua casa. Colecionava as imagens antes de dominar o código inteiro.

O avô, por sua vez, em 1954, fez uma assinatura de mangás importados para os netos. Para o Velho Seto, mangá era arte! E também uma forma de manter viva a língua e a cultura japonesa.

Esses mangás seriam decisivos!

Entre as leituras que mais influenciariam Claudio Seto em seus quadrinhos estão Osamu Tezuka, Sanpei Shirato e Hideko Mizuno.

Mas aqui vale menos a lista de nomes… e mais o efeito que ela produziria no futuro.

Porque o menino do interior paulista crescia ligado a um circuito visual japonês que ainda nem existia aqui no Brasil.

A casa ensinava tradição.

O avô ensinava forma.

O trem trazia imagens…

E o menino aprendia a olhar…

Sem alarde.

Sem tese!

Com repetição; curiosidade; e atenção.

BLOCO 3

Só que esse olhar não se forma apenas na delicadeza da casa.

Ele também passa pelo trabalho.

Dos 10 aos 12 anos, Claudio Seto trabalhou na lavoura. Dos 12 aos 16, na retomada da fábrica de saquê do avô. Ao mesmo tempo, ia passando por diferentes escolas para concluir o primário. Depois, começou o ginásio em Lins, mas interrompeu os estudos antes de concluir.

A vida dele, nessa fase, é feita de deslocamentos, aprendizagem, e por muitos caminhos simultâneos.

Entre os 16 e os 19 anos, Seto se torna aprendiz do fotógrafo e pintor japonês Teisuke Kumasaka.

Com Kumasaka, ele não aprende só técnica de ateliê. Aprende fotografia! Aprende cor! Aprende arte abstrata!

Aprende uma sofisticação do olhar que, mais tarde, reapareceria em outras fases da sua trajetória.

Ou seja: o menino do kanji, do haicai e dos mangás também está se tornando um jovem atento à composição, à cor e à abstração.

Mas, talvez, a imagem mais viva dessa fase esteja em outro lugar: na estrada!

Seto trabalha como ajudante de caminhoneiro do primo Tetsuo Kumabe, que transportava tomates para a marca CICA. Enquanto o primo negociava, ele ficava cuidando da carga. E, sem muito o que fazer, Seto começa a pintar a porta do caminhão para passar o tempo.

Primeiro, como improviso.

Depois, como encomenda.

Naquela época, era comum pintar águias, frases e paisagens nos caminhões. O trabalho chama atenção. Surgem pedidos. Ele passa a virar noites em pontos de parada, pintando os caminhões de outros motoristas. O primo percebe o potencial, ajuda a arrumar clientes, e, durante um tempo, aquilo vira uma fonte importante de dinheiro para a família.

E esse trabalho diz muito sobre ele!

Seto parece encontrar superfície de criação em qualquer lugar!

Na porta de madeira.

Na página impressa.

Na lataria do caminhão.

No tecido.

Não é só vocação.

É disponibilidade para transformar prática em linguagem.

Mas a mãe intervém. Preocupada com o futuro do filho, convence Claudio a deixar a estrada e retomar os estudos. A família já havia se mudado para Sorocaba. Em 1965, ele conclui o ginasial na Escola Estadual de Votorantim, faz dois cursos de desenho por correspondência — um pela Escola Paulista de Artes e outro pela Escola Panamericana de Artes — e consegue uma vaga como desenhista aprendiz de Wilson Campos, numa estamparia de tecidos.

É aqui que o olhar começa a virar ofício…

Ainda não existe o autor publicado.

Ainda não existe a Edrel.

Ainda não existe o artista que vai circular por quadrinhos, jornalismo, pintura, bonsais, festivais e memória cultural.

Mas já existe uma DIREÇÃO.

ENCERRAMENTO

Quando a gente olha para os primeiros anos de Claudio Seto, talvez o mais interessante não seja procurar sinais de genialidade precoce.

Talvez seja—perceber—como esse olhar foi sendo composto.

Por uma família japonesa no interior de São Paulo.

Pelo pós-guerra.

Pelo avô que escrevia, pintava e cultivava bonsais!

Pelos gibis comprados no trem…

Pelos mangás que chegavam do Japão!

Pela lavoura.

Pela fábrica de saquê.

Pela fotografia.

Pela estrada…

Pelo trabalho.

Antes do multiartista, houve isso: um menino crescendo entre linguagens.

E talvez seja por isso que, mais tarde, Claudio Seto tenha conseguido circular por tantos mundos com tamanha flexibilidade e abertura!

Porque seu olhar já tinha nascido assim: misturado… paciente… em movimento.

O resto viria depois!

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EPISÓDIO 2 — Edrel, Seto e Minami — Os Pioneiros do Mangá no Brasil: de 1966 a 1974 https://claudioseto.com.br/episodio-2-edrel-seto-e-minami-os-pioneiros-do-manga-no-brasil-de-1966-a-1974/ Thu, 30 Apr 2026 17:52:10 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=461

Resumo do episódio

Episódio 2 — Nasce o autor

No fim dos anos 1960, Claudio Seto encontra na Edrel e em Minami Keizi o primeiro espaço real para viver de quadrinhos. Mas esse nascimento como autor já vem atravessado por mercado, erotismo, censura e cálculo de sobrevivência. Neste episódio, acompanhamos o momento em que o olhar de Seto vira sua assinatura — e o transforma em um dos quadrinistas pioneiros dos mangás no Brasil.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch

Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Antes de Claudio Seto se tornar um nome importante dos quadrinhos brasileiros, ele precisou fazer uma escolha bem concreta.

Não entre arte e não arte.

Mas, entre caminhos…

Em algum momento da juventude, ele chegou a ser procurado por Maurício de Sousa, que lhe ofereceu um estágio em troca da página de quadrinhos do veículo em que Seto trabalhava. Era uma possibilidade real… Um caminho mais seguro, talvez.

Mas ele recusou!

Já queria outra coisa…

Não apenas trabalhar com quadrinhos.

Queria existir como autor.

Aos 22 anos, com o traço mais maduro e já se considerando um profissional do desenho, ele aproveitaria a mala direta do Jornal do Lar, das antigas Lojas Arapuã, e incluiria no envio os endereços de várias editoras, para que editores vissem seus trabalhos.

Entre todos os destinos, havia um preferido: a Edrel, recém-entregue a um jovem nikkei chamado Minami Keizi.

A segunda fase da vida de Claudio Seto começa não com reconhecimento pronto, mas com uma ambição muito concreta: ele quer ser visto como alguém apto a explorar novos caminhos!

E, pela primeira vez, um novo caminho vai se abrir para ele!

BLOCO 1

Para entender o encontro de Seto com os quadrinhos, precisamos conhecer quem era o jovem editor que proporcionou o ambiente para que Seto se tornasse um dos pioneiros do mangá no Brasil.

Minami Keizi era da mesma geração de Seto. Também descendente de japoneses. Também vindo do interior paulista. Também apaixonado por mangás.

Aos 19 anos, foi sozinho para São Paulo, a capital do estado, acreditando que teria emprego garantido no mercado editorial.

O que aconteceu foi que descobriu outra coisa: que o mercado de quadrinhos, no Brasil, quase não existia!

Depois de muito trabalho, entrou na Pan-Juvenil, publicou Tupãzinho e o Álbum Encantado, considerado o primeiro mangá publicado no Brasil.

Pouco depois, a editora muda de nome, se tornando a Edrel. E Minami passa a procurar artistas para lançar ali.

No fim de 1966, ele encontra Claudio Seto.

E esse encontro é cercado de coincidências que o próprio Seto, mais tarde, trataria quase como coisa de destino. Os dois tinham afinidades demais! Chegaram até a ficar no mesmo lugar, na cidade de Lins. Quando Minami vai atrás dele, encontra Seto em um sábado à tarde, dormindo na mesma pensão em que costumava se hospedar!

Mas o mais forte desse encontro não é o acaso!

É o reconhecimento.

Seto encontra alguém que entende seu repertório artístico.

Minami encontra alguém que é TÃO apaixonado e influenciado pelos mangás quanto ele!

Depois do primeiro contato, Claudio Seto publica seu primeiro quadrinho na revista Garotas & Piadas, volume 6, ainda assinando como C ponto Seto e ainda trabalhando na Arapuã. Poucos meses depois, aos 23 anos, recebe de Minami a incumbência de produzir todo o material da revista Humor Negro número 4.

De promessa isolada, ele começa a virar presença real dentro da editora.

O desenho deixa de ser só vocação — e começa a virar lugar.

BLOCO 2

A partir daí, a vida acelera!

Quanto mais Seto desenha, mais trabalho Minami lhe dá! E isso produz uma mudança bem concreta: pela primeira vez, Claudio Seto pode viver, exclusivamente, do trabalho como quadrinista!

As vendas vão tão bem que a Edrel compra para Seto um fusca zero, cujas prestações seriam descontadas do que ainda tinha a receber pela produção. Mais do que um carro, esse fusca vira um sinal material de mudança de escala.

O quadrinho deixa, então, de ser aposta para se tornar sustento.

Para atender à demanda, Seto abre a empresa Seto Produções Artísticas, presta pequenos serviços de ilustração e, em pouco tempo, é convidado por Minami para coordenar um dos quatro grupos de artistas da editora.

Isso já nos dá spoilers do futuro!

O autor está nascendo.

Mas nasce junto com outras funções: organizar o trabalho, pensar a produção e transitar entre desenho e edição.

Em outras palavras, podemos dizer que foi na Edrel que Seto teve a chance de treinar suas habilidades de articulador artístico.

E, é nessa fase também, que aparecem alguns dos personagens mais memoráveis do autor!

Em 1968, Seto cria O Samurai, revista ambientada no Japão feudal e desenhada em estilo gekigá. E há um detalhe bonito nisso: o protagonista do primeiro volume se chama Chuji, o nome japonês que Seto recebeu do avô — como se, ao entrar de fato no circuito profissional, ele devolvesse para a página uma parte muito íntima da própria formação.

Entre 1968 e 1970, O Samurai teve 16 edições.

E, enquanto produzia O Samurai, Seto também criou outra personagem que se tornaria popular: em 1969, nasce a Maria Erótica. Primeiro, como coadjuvante de Beto Sonhador. Depois, em histórias avulsas. O sucesso foi tamanho que, em 1970, Minami decide criar uma revista exclusiva para a personagem.

E o contraste entre esses dois personagens ajuda a entender bem a fase.

De um lado, o samurai, o Japão feudal, a violência filosófica do gekigá!

Do outro, a repórter loira e cheia de curvas, desenhada para circular numa lógica editorial de erotismo crescente.

Não são dois Setos opostos.

São dois Setos trabalhando dentro do mesmo sistema. Tentando refinar uma linguagem num mercado que puxa em várias direções ao mesmo tempo.

Enquanto isso, a Edrel cresce! Em 1971, já tem estrutura de editora de médio porte, com gráfica, fotolito e equipe próprias. Promove um curso por correspondência, do qual Seto é um dos professores. A editora ganha tanta importância que consegue promover a primeira exposição brasileira só com quadrinistas nacionais!

Ao lado de Fernando Ikoma e Paulo Fukue, Seto integra o chamado “trio de ouro” da editora.

A essa altura, Seto começa a deixar de ser uma promessa para se tornar um dos pioneiros dos mangás no Brasil.

BLOCO 3

Só que havia um problema: o mesmo espaço que permite essa expansão, traz junto o atrito.

A lógica comercial da Edrel era simples: as revistas que vendessem 50% da tiragem—ou MENOS—eram canceladas! E, nesse cenário, o erotismo ganhava peso! Garotas & Piadas, herdada dos tempos da Pan-Juvenil, vendia bem. Minami melhora a publicação. Seto passa a criar fotonovelas e histórias em quadrinhos cada vez mais carregadas de erotismo!

Não, porque tinha abandonado o interesse por outras formas.

Mas, porque a sobrevivência editorial vai empurrando a produção nessa direção.

Ao mesmo tempo, o país endurece.

Em 1970, com o AI-5 em vigor, a Edrel entra na mira da guerra moral contra revistas eróticas e de cunho sexual. Oito títulos da editora aparecem em listas de censura da ditadura.

A pressão não é abstrata.

Ela mexe com a circulação!

Com a venda.

Com a imagem pública.

Com o risco!

É nesse ambiente que Seto aprende a sobreviver como artista: diante de um contexto em que criar, também significa calcular!

E Seto calcula.

Em Guaiçara, segue ampliando sua presença social. Estuda, participa de associações, se torna figura conhecida na cidade e, aos 25 anos, é eleito vereador com o MAIOR número de votos! Pouco antes disso, filia-se à ARENA, o partido conservador da época.

Anos mais tarde, ele afirmaria que se filiou à ARENA porque lhe aconselharam que era “o melhor lugar para se esconder de qualquer suspeita ideológica”. Desenhar quadrinhos eróticos e ser artista chamava a atenção dos censores — e ele preferia se preservar para poder continuar publicando.

Enquanto isso, a Edrel começa a se desgastar por dentro. Os sócios divergem. Planos vazam. A confiança se rompe. Em dezembro de 1971, Minami deixa a editora. Depois dele, Paulo Fukue assume, mas sai em 1972. Fernando Ikoma também parte no fim de 1973.

Seto é o mais longevo do trio. Permanece como quadrinista exclusivo até o começo de 1974.

Logo depois, a Edrel fecha as portas — e Seto se questiona se continuará produzindo quadrinhos.

ENCERRAMENTO

No primeiro episódio, acompanhamos o nascimento do olhar.

Neste, o que nasce é outra coisa.

Nascem assinatura… ofício… e possibilidade CONCRETA de viver de quadrinhos!

Mas TAMBÉM nasce o atrito!

Talvez seja isso que torne essa fase tão importante. Claudio Seto não encontra apenas um lugar para publicar. Encontra um sistema inteiro, com tudo o que ele tem a oferecer e cobrar.

Em 8 anos, Seto produziu milhares de páginas de quadrinhos — originais deixados para trás, com o fim da editora Edrel.

O caminho aberto por Minami Keizi transformou Claudio Seto em um autor — um dos pioneiros do mangá no Brasil!

Um autor que nasce sabendo, talvez cedo demais, que nem esforço e nem talento sozinhos são capazes de sustentar uma editora…

Mas, o que sustentaria uma editora de quadrinhos?!

Eis a pergunta que Seto tentaria responder na sua próxima fase de vida, em Curitiba.

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EPISÓDIO 3 — Curitiba e o Tonguenkyo de Claudio Seto na Editora Grafipar: de 1975 a 1983 https://claudioseto.com.br/episodio-3-curitiba-e-o-tonguenkyo-de-claudio-seto-na-editora-grafipar-de-1975-a-1983/ Thu, 30 Apr 2026 17:51:54 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=463

Resumo do episódio

Episódio 3 — Nasce o articulador

Depois da Edrel, Seto chega a Curitiba sem saber se vai continuar produzindo quadrinhos. A dúvida se dissipa quando ele ingressa na Grafipar, e passa de quadrinista para editor, ajudando a construir uma comunidade de artistas e leitores. Este episódio acompanha o momento em que Claudio Seto deixa de ser apenas autor e passa a articular um ecossistema inteiro — até ver esse mundo começar a ruir por dentro.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch

Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Em 1975, Claudio Seto não estava exatamente começando do zero.

Mas, também, não sabia muito bem para onde estava indo.

A Edrel tinha ficado para trás…

A política em Guaiçara já não parecia mais tão interessante assim…

Tinha trabalhado. Tinha circulado. Tinha ganhado prestígio local.

Mas faltava uma direção para seguir…

Naquele momento, Seto havia sido reeleito vereador, tinha uma vida social intensa e ainda guardava uma poupança capaz de sustentar ele por um ano. Só que nada disso resolvia a questão principal: o que fazer como quadrinista?

Em fevereiro daquele ano, ele se casa com Mitsue Kawahara. Depois da festa, os dois entram no fusca herdado da fase Edrel e saem em lua de mel sem destino definido. Vão cruzando o interior paulista, descem pelo Paraná, passam por Santa Catarina, até chegarem na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, no Rio Grande do Sul. Na estrada, Seto pinta paisagens e vende quadros para que eles tenham dinheiro para continuar a viagem.

E essa viagem nos revela muita coisa!

Mesmo quando o caminho não está claro, Seto continua transformando experiência em trabalho, em imagem, em circulação.

Mas a aventura vai apertando! Em julho, no caminho de volta para Guaiçara, eles chegam a Matinhos, litoral paranaense. Porém, eles não tinham nem dinheiro e nem material de pintura para seguir…

Seto vende sua máquina fotográfica, de estimação, para que o casal consiga chegar ao banco mais próximo, em Curitiba, para receber ajuda de parentes.

E… é na capital paranaense, na madrugada de 17 de julho de 1975, hospedados no hotel Ouro Verde, que acontece a cena que mais tarde se transformaria em mito: na manhã seguinte, a cidade amanhece coberta de neve!

Anos depois, Seto diria que foi naquele dia que encontrou o próprio Tonguenkyo — uma espécie de paraíso das lendas japonesas que ouvira do avô.

Isso porque Curitiba aparece, naquele contexto, como uma possibilidade.

Como uma suspensão.

Como um recomeço…

Como se a vida indicasse: tem um NOVO CAMINHO aqui!

BLOCO 1

Nos primeiros meses em Curitiba, Seto não volta imediatamente aos quadrinhos.

Ele e Mitsue alugam uma casa na mesma rua do hotel onde estavam hospedados. Seto consegue trabalho no Ipag — antigo Sebrae — produzindo material audiovisual para cursos de micro e pequenos empresários.

Ao mesmo tempo, faz freelas para O Estadinho, suplemento infantil do jornal O Estado do Paraná, desenhando histórias em formato shoujo mangá para crianças. E, por um tempo, como ainda era vereador, precisa ir até Guaiçara a cada quinze dias, até que um substituto assuma sua vaga na Câmara.

É um momento de travessia, em que o quadrinho não desaparece, mas também não organiza a vida inteira.

Seto está entre coisas.

Entre cidades.

Entre trabalhos.

Entre fases.

Até que, em maio de 1977, acontece uma pequena cena decisiva.

Ele compra, numa banca de jornal, um exemplar da Revista Peteca, publicada pela Grafipar. E, ao folheá-la, Seto reconhece ali alguma coisa do espírito da Edrel. Não o mesmo mundo. Mas um eco. Uma pista. Uma continuidade improvável.

Ele se anima!

Manda pelo correio algumas histórias suas já publicadas na Edrel.

E, na mesma carta, sugere a Faruk El Khatib, o editor da Grafipar, a criação de uma revista de quadrinhos eróticos!

A resposta viria só no ano seguinte, quando Luiz Rettamozo, o Retta, avisa Faruk que Claudio Seto está morando em Curitiba. Faruk acha o nome familiar, abre uma gaveta e reencontra o envelope recebido um ano antes, com os originais de Seto.

Só então que o artista é convidado para uma reunião na editora.

Depois de duas horas de conversa com Faruk e Retta, Seto dá sugestões de como inserir o erotismo com mais direcionamento e ousadia nas revistas da editora.

O ano é 1978—e Seto está de volta aos quadrinhos!

Em apenas uma semana, produz 24 páginas INÉDITAS para a revista Eros – Sexo em Quadrinhos. Quatro anos depois de sair da Edrel, o caminho estava reaberto.

Mas, talvez, o mais importante desse retorno é que Seto não volta apenas como quem reencontra um emprego…

Ele volta como quem percebe, dentro de uma editora ainda periférica, a chance de reconstruir um espaço para os quadrinistas brasileiros.

BLOCO 2

Em dezembro de 1979, Claudio Seto passa a ter carteira assinada pela Grafipar.

Recebe um salário mínimo, mais pagamentos variáveis conforme a produção de páginas e os trabalhos de diagramação.

No papel, é um emprego. Na prática, é outra coisa. Porque Seto não leva para a Grafipar só o traço… Leva experiência editorial, capacidade de organizar produção, leitura de mercado e, sobretudo, uma energia de convocação!

A notícia de que a Grafipar estava publicando quadrinhos nacionais correu RÁPIDO!

O próprio Seto conta isso com humor: no primeiro número, ninguém acredita que vá continuar; no segundo, ainda desconfiam; no terceiro, todo mundo quer colaborar. E é isso que começa a acontecer!

Ele chama antigos artistas, atrai novos, convida colegas a morarem em Curitiba. A editora vai virando ponto de encontro, possibilidade real de trabalho, promessa concreta de continuidade.

Em junho de 1979, Seto convoca uma reunião na sede da editora com 21 artistas de várias partes do Brasil. O objetivo era discutir como enfrentar os syndicates americanos com quadrinhos nacionais. A reunião é importante porque transforma um desejo disperso em projeto coletivo. Pouco tempo depois dessa reunião, Seto se torna editor do Grupo dos Quadrinhos da Grafipar.

Foi nessa mesma reunião que ele convidou artistas para morar em Curitiba.

E não ficou só no convite! Seto procurou casas perto da sua, no bairro São Brás, para receber quem aceitasse vir.

Dessa empreitada nasceu a Vila dos Quadrinistas: um terreno com quatro meias-águas de madeira, muros baixos, circulação intensa e MUITA produção!

Em momentos diferentes, passam por ali nomes como Watson Portela, Gustavo Machado, Itamar Gonçalves, Fernando Bonini, Franco de Rosa, Rodval Matias e Ataíde Braz. Sob a tutela de Seto, muitos puderam viver exclusivamente de quadrinhos!

Só pelo fato de existir, a Vila dos Quadrinistas importa MUITO!

Não como folclore.

Mas como ecossistema.

Porque demonstra como a Grafipar foi capaz de movimentar o mercado!

Em janeiro de 1980, a editora publicava nada menos do que 16 revistas mensais, duas quinzenais e ao menos cinco revistas extras por mês! Até a Maria Erótica volta com uma revista própria!

Seto edita, desenha, organiza, pensa em alternativas para manter o trabalho dos artistas nacionais e chega a escrever longos editoriais defendendo os quadrinhos brasileiros feitos “na raça”: ou seja, feitos apenas com personagens e histórias autorais!

Pela primeira vez, Seto não está apenas tentando caber num espaço.

Ele está articulando para ajudar a construir esse espaço.

BLOCO 3

SÓ que esse espaço cresce de forma descontrolada!

A Grafipar aumenta a produção, diversifica títulos, amplia a linha erótica e sobrecarrega seus artistas. Seto luta para manter o espaço para os quadrinhos nacionais, segurando a entrada de material estrangeiro. Chega a fazer desaparecer 500 páginas de quadrinhos italianos—compradas por Faruk—para abrir lugar a personagens originais. Mas a estrutura começa a ranger…

A crise piora quando Faruk decide expandir os negócios e compra o jornal Correio de Notícias, usando o capital de giro da própria Grafipar. Sem conseguir sustentar o jornal por muito tempo, Faruk o vende quatro meses depois.

Mesmo meio quebrado, Faruk decide comprar a parte do pai e do irmão na editora, usando ainda mais recursos da editora. A partir daí, a Grafipar entra numa bola de neve de dívidas. A produção sobe, a qualidade cai, e os quadrinistas ficam sobrecarregados.

E o contexto externo também atrapalha!

A abertura política libera a pornochanchada, o nu frontal e o sexo explícito em revistas com fotos. Os quadrinhos eróticos passam a disputar atenção com publicações mais quentes. Para sobreviver, a editora radicaliza. Os títulos ficam mais pornográficos. A pressão aumenta!

Seto tenta reagir.

Cria quadrinhos pornográficos porque o mercado empurra nessa direção. Tenta usar o que aprendeu na Edrel para não repetir o mesmo colapso. Cria a Bico de Pena, pensada como uma espécie de cooperativa, em que artistas e colaboradores teriam participação nos lucros. O projeto não se consolida, mas mostra uma coisa importante: mesmo na crise, Seto continua procurando forma. Continua tentando inventar estrutura.

E, há um detalhe bonito nisso tudo: mesmo perto do colapso, Seto ainda aposta no futuro.

Em outubro de 1982, publica Robô Gigante e Super Pinóquio, revistas infantis com forte influência de Osamu Tezuka. Ele acreditava que o mangá ainda tomaria conta dos quadrinhos mundiais e que era preciso ocupar espaço antes disso acontecer. Mesmo ali, no aperto, Seto segue pensando adiante.

Mas, infelizmente, não bastou que Seto fosse um visionário dos mangás. Apesar de sonharmos com um futuro em que a Bico de Pena deu certo, o fato é que a Grafipar já estava dando seus últimos suspiros…

Em dezembro de 1982, a Grafipar publica Xanadu, sua última revista exclusiva de quadrinhos. Em julho de 1983, sai a última edição de Quadrinhos Eróticos. No mesmo ano, a Vila dos Quadrinistas deixa de existir e cada colaborador segue seu caminho.

ENCERRAMENTO

Na Edrel, Claudio Seto encontra um lugar para existir como autor.

Na Grafipar, ele não apenas encontra, mas constrói: constrói um lugar para que outros quadrinistas também existam.

Nessa fase, Seto não é apenas desenhista. Nem apenas editor. Nem apenas o nome que aparece nas capas. Ele vira articulador! Alguém capaz de reunir gente, organizar trabalho, enxergar possibilidades onde ainda sequer haviam formas prontas.

Curitiba… Grafipar… Vila dos Quadrinistas…

Partes de uma experiência concreta de construção.

E talvez seja por isso que o fim dessa fase não soe apenas como a quebra de uma editora… Soe como o esvaziamento de um pequeno mundo.

Um mundo que existiu…

Funcionou…

Mudou trajetórias…

E, depois, se desfez.

Ao se apagarem as luzes da Grafipar, para onde iria Claudio Seto, sua maior estrela??

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EPISÓDIO 4 — Orientando-se entre Tintas e Máquinas de Escrever — O Claudio Seto jornalista do Correio de Notícias: de 1984 a 1994 https://claudioseto.com.br/episodio-4-orientando-se-entre-tintas-e-maquinas-de-escrever-o-claudio-seto-jornalista-do-correio-de-noticias-de-1984-a-1994/ Thu, 30 Apr 2026 17:50:58 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=465

Resumo do episódio

Episódio 4 — Nasce o multiartista

Com o fim da Grafipar, Claudio Seto transforma o jornal em nova trincheira de linguagem. Entre charge, crítica cultural, artes plásticas, zazen e comunidade japonesa, ele se mostra ainda mais complexo. Neste episódio, acompanhamos a fase em que sobreviver não significa apenas continuar trabalhando — mas sim mudar de forma sem perder a essencia.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch

Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Em 1984, Claudio Seto vê a história se repetir.

Mais uma vez, a editora para a qual trabalhava entra em colapso…

Mais uma vez, ele precisa pensar no que fazer da vida.

Mais uma vez, precisa encontrar como continuar…

Mas, desta vez, Seto não sai de Curitiba. Não some. Não se recolhe.

Ele monta um currículo e vai atrás de trabalho!

Isso, por si só, já tem alguma ironia. Afinal, Seto tinha sido editor da Grafipar, uma das experiências mais intensas dos quadrinhos brasileiros… Aquilo deveria significar alguma coisa!

Só que, em Curitiba, quase NINGUÉM reconhecia a Grafipar como capital cultural realmente prestigiado. O que ele havia ajudado a construir ainda ocupava um lugar ambíguo demais: entre erotismo, margem, imprensa alternativa e prestígio incompleto…

É nesse ponto que o jornal Correio de Notícias reaparece.

Com um novo dono, o Correio de Notícias volta a circular em 15 de maio de 1984, embalado pelo clima de abertura política das Diretas Já. E logo na edição do dia seguinte aparecem uma ilustração e uma charge de Claudio Seto.

A reinvenção de Seto não começa como discurso.

Começa como gesto… Como trabalho… Como linha traçada em papel jornal.

Aos 40 anos, depois de ter dedicados 20 anos da sua vida aos quadrinhos, Seto reorganiza o seu mundo para seguir desenhando.

Dessa vez, através do jornalismo, das reportagens e das artes plásticas.

BLOCO1

O Correio de Notícias dá a Seto muito mais do que emprego.

Dá ritmo. Dá rotina. Dá circulação diária. Dá uma nova forma de presença.

Pelo volume de charges que ele publica a partir dali, tudo indica que, no início, sua atuação foi mesmo como chargista. E isso indica uma transformação! Porque a charge exige outra coisa do artista. Exige síntese, rapidez, leitura de conjuntura, resposta imediata!

É um trabalho BEM diferente do quadrinho longo.

Mas não é ruptura: é adaptação.

Cinco meses depois, em 6 de outubro de 1984, Seto ganha destaque numa matéria sobre seu momento presente. Nela, a jornalista Cila Shulman o descreve como o ilustrador do jornal e afirma que Claudio Seto “desenha, ilustra e faz quadrinhos doze horas por dia, sem descanso, há vinte anos”.

Essa frase tira a reinvenção do campo do romantismo.

Seto não é um artista esperando inspiração: é um artista trabalhando o tempo inteiro! Todos os dias. Em todos os suportes possíveis.

Mesmo com o trabalho jornalístico cada vez mais intenso, Seto decide investir sua energia criativa nas artes plásticas. Volta a vender quadros, participar de exposições, e começa a abrir novos espaços para sua produção autoral—fora do circuito dos quadrinhos.

Então, podemos dizer que o jornal não reduz o artista. Pelo contrário: o jornal expande suas possibilidades artísticas!

Ele passa a desenhar, ilustrar, escrever, circular, reaparecer publicamente.

E, aos poucos, o que parecia apenas uma saída profissional começa a virar outra coisa: uma nova forma de expressão criativa.

BLOCO 2

Em 1986, essa fase ganha outra espessura.

É como se o jornal deixasse de ser SÓ lugar de sobrevivência e passasse a funcionar como plataforma!

Em abril daquele ano, o Correio de Notícias publica uma reconstituição de crime em quadrinhos feita por Claudio Seto: oito quadros sobre o sequestro e assassinato de um garoto de 11 anos, em Campo Mourão, cidade localizada no centro-oeste do Paraná.

O dado é curioso, porque antecipa o trabalho que ele fará na sua próxima fase, para o jornal Tribuna do Paraná — e do qual falaremos no próximo episódio.

Em maio, saem duas notas na mesma página sobre ele. Uma registra sua participação na World Cartoon and Comics Expo 86, no Japão. A outra, sua seleção para a 7ª Mostra do Desenho Brasileiro, promovida pela Secretaria de Cultura.

E, em junho, Seto publica uma CRÍTICA dura à mesma Secretaria, questionando o tratamento desigual dado aos artistas selecionados!

A essa altura, fica claro que o Correio de Notícias realmente se transforma na sua principal plataforma de divulgação e expressão!

Esse movimento é importante!

Porque aqui, ele já não aparece só como ilustrador ou artista plástico tentando espaço.

Aparece como alguém que usa o jornal para intervir e movimentar a cena cultural da cidade!

No mesmo ano, consegue sua primeira exposição individual no Paraná: Hara Kiri em Cascavel, no SESC da cidade de Cascavel, no norte do estado — com grandes painéis com releituras do Japão medieval em cores intensas!

Ainda não era uma exposição individual na capital. Mas, já era afirmação!

Ao mesmo tempo, ele vai se aproximando mais da comunidade nipo-brasileira, participando de mostras com artistas de ascendência japonesa.

Tudo isso desemboca muito bem em 1987.

É nesse período que Seto publica colunas sobre arte, nas quais questiona hierarquias entre linguagens e defende uma ideia menos estreita de criação.

E, é também nesse ano, que explode a polêmica do 43º Salão Paranaense!

Um dos jurados, Walmir Ayala, declara publicamente que a obra de Seto — o Cubo Cósmico — deveria ter sido premiada. Chama o trabalho de “o mais inventivo do salão”! Um trabalho de pesquisa SÉRIO! Manipulável.

A fala importa porque expõe uma tensão que atravessa essa fase inteira: parte do meio artístico ainda não sabia bem onde colocar Claudio Seto.

Quadrinista?!

Pintor?

Artista pop?!

Figura marginal?

Pesquisador visual?

Talvez a resposta fosse justamente essa mistura…

E, pra misturar ainda mais, em junho de 1987, nasce a página Oriente-se—dedicada à cultura japonesa — e da qual Seto é um dos redatores.

Esse detalhe coloca mais uma camada no nosso episódio.

Porque, a partir daqui, o jornal deixa de ser apenas um lugar de charge, crítica e artes plásticas.

Passa a ser também um espaço para falar sobre toda a cultura japonesa transmitida pelo avô.

BLOCO 3

No fim dos anos 1980 e começo dos 1990, Claudio Seto já não aparece apenas como quadrinista que migrou para o jornal. Aparece como uma mistura difícil de classificar: artista plástico, redator, chargista, homem ligado ao zen, presença constante na cena cultural e ponte cada vez mais forte com a comunidade japonesa de Curitiba.

A página cultural Programe-se, para a qual ele escrevia notícias e conduzia entrevistas, vai sendo reformulada até mudar de nome e tornar-se Vernissage, uma página sobre artes plásticas editada por ele — tornando-o um importante interlocutor de arte na cidade.

Já a coluna Oriente-se transforma-o no principal consultor de cultura japonesa em Curitiba!

E, como uma bela lembrança, em 1988, ele recebe o Troféu Angelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional!

O detalhe é bonito porque esse reconhecimento pelos quadrinhos vem justamente quando sua figura já está transbordando os quadrinhos.

Como se a premiação confirmasse uma origem, enquanto a vida já estava em outra expansão…

Em 1990, a matéria “Quinze anos tirando tudo do nada” ajuda a consolidar esse retrato. Anuncia sua exposição individual em Curitiba, com 36 telas inéditas de pintura abstrata. E é nessa altura que Seto começa a aparecer cada vez mais nessa chave múltipla: artista, praticante de zazen, articulador cultural… um homem difícil de caber numa única definição.

Nos anos seguintes, ele ministra cursos de desenho na Gibiteca de Curitiba e no Centro de Criatividade. Mas a cultura japonesa o chamava — e ele queria registrar um material mais concreto sobre sua ancestralidade.

É então que um novo encontro decisivo acontece!

A jornalista Maria Helena Uyeda chega ao Correio de Notícias em 1991, e eles logo se tornam amigos. No ano seguinte, Seto conta a ela que quer escrever um livro sobre a imigração japonesa e a convida para ser coautora.

Pode parecer um detalhe pequeno. Mas, nos mostra que essa fase do jornal já está preparando outra coisa…

O chargista.

O ilustrador.

O artista plástico.

O redator.

O jornalista da página cultural.

Tudo isso começa a se reorganizar em torno de um desejo MAIOR: o de transformar memória coletiva em livro.

ENCERRAMENTO

Depois da Grafipar, Claudio Seto não desaparece.

Também não se repete.

Ele muda de suporte.

Muda de ritmo…

Muda sua produção!

Mas continua reconhecível!

Talvez seja isso que esta fase revele… com mais clareza.

O que havia de mais forte em Seto não era apenas o quadrinho.

Nem apenas o traço…

Nem apenas um repertório japonês transplantado para o Brasil…

Era uma capacidade de migrar… sem se perder!

No Correio de Notícias, essa capacidade ganha outras formas.

Vira charge…

Vira texto…

Vira crítica…

Vira pintura…

Vira ponte!

E, quando o jornal encerra suas atividades, em 1995, Claudio Seto já não é apenas o artista que sobreviveu ao fim de duas editoras.

É alguém que aprendeu a continuar — e, continuando, ficou ainda MAIOR!

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EPISÓDIO 5 — Entre Bonsais e Sangue: um sacerdote Zen reconstituindo crimes para o jornal A Tribuna Do Paraná — de 1995 a 2008 https://claudioseto.com.br/episodio-5-entre-bonsais-e-sangue-um-sacerdote-zen-reconstituindo-crimes-para-o-jornal-a-tribuna-do-parana-de-1995-a-2008/ Thu, 30 Apr 2026 17:49:28 +0000 https://claudioseto.com.br/?p=468

Resumo do episódio

Episódio 5 — Nasce o mestre zen

Em sua última fase, Claudio Seto já não cabe em uma única função. Entre bonsais, redação de jornal policial, festivais e lendas japonesas, livros sobre imigração e vida comunitária, ele se torna uma ponte viva entre memória, trabalho e afeto. Neste episódio, acompanhamos a expansão de uma trajetória múltipla, na qual Seto transforma tudo o que recebeu em transmissão.

Créditos do episódio

Texto e narração: Mylle Pampuch
Edição e masterização: Cássio Menin.

Este é um projeto realizado com recursos do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura — Fundação Cultural de Curitiba, da Prefeitura Municipal de Curitiba, do Ministério da Cultura e do Governo Federal.

Transcrição do episódio

ABERTURA

Em 1995, Claudio Seto já tinha aprendido uma coisa importante: nem todo fim é um ponto final.

Pela terceira vez, a empresa para a qual trabalhava encerrava as atividades.

Pela terceira vez, ele precisava encontrar outro lugar para continuar…

Mas agora havia uma diferença…

Desta vez, Seto não precisava se apresentar ao mundo como alguém começando do zero.

Já era conhecido.

Já tinha contatos.

Já era experiente.

No mesmo março de 1995, ele passa a ilustrar para os jornais O Estado do Paraná e a Tribuna do Paraná. E a edição do dia 15 de março da Tribuna já traz sua ilustração em destaque na capa!

A passagem é quase sem ruído. Apenas um jornalista transitando entre jornais.

Nesse último episódio, chegamos a uma fase da vida de Claudio Seto em que ele já não luta apenas por espaço para si. Passa, cada vez mais, a trabalhar para que histórias, vínculos e memórias não se percam.

BLOCO 1

A cena mais forte desta fase talvez seja também a mais improvável.

De manhã, Claudio Seto cuidando de bonsais.

À noite, reconstituindo crimes em forma de quadrinhos para a capa do jornal.

A rotina de Seto foi mudando, aos poucos. Mesmo ainda trabalhando em jornais diários, ele começa a aparecer na redação apenas no fim da tarde ou no começo da noite, quando as notícias do dia seguinte já estavam disponíveis. Assim, ele podia dormir até mais tarde e dedicar o período da manhã aos bonsais.

Em 2001, diria que cuidar de bonsais era o que mais gostava de fazer.

Nessa época, ele tinha quase 500 árvores em miniatura em seu jardim.

E dizia ter herdado do avô esse amor pelas plantinhas…

Seto convive com duas temporalidades muito diferentes.

A da urgência… da manchete… e do crime.

Junto com a da poda… do cuidado… e da paciência.

Em vez de se anularem, essas duas coisas parecem se condensar em Seto.

Como se, no fim da vida, sua multiplicidade deixasse de ser apenas uma soma de atividades e virasse um modo de estar no mundo.

Se antes as pessoas o procuravam mais por causa das pinturas, nessa fase, passaram a procurá-lo pelos bonsais.

Isso nos diz alguma coisa…

Que Seto já não estava SÓ produzindo imagens: que estava, também, cultivando o cuidado, a cultura e a ancestralidade!

BLOCO 2

Mas, é claro que Seto não se limitava à redação e ao jardim.

O que vai se formando aqui é outra coisa: uma figura de mediação.

Com o fim do Correio de Notícias, ele passa a editar o Jornal do Nikkei, voltado à comunidade japonesa de Curitiba. Depois, o veículo é rebatizado de Planeta Zen e começa a circular também nos festivais japoneses, para um público mais amplo.

Festivais japoneses que, aliás, ele cria em 1992 e ajuda a levar para fora da comunidade japonesa, criando um público cativo dos Matsuri em Curitiba que perdura até os dias de hoje.

Como um jornalista especializado em cultura japonesa, Seto se torna correspondente do jornal Paraná Shimbun e colaborador do jornal NippoBrasil, onde publica, entre 2000 e 2005, dezenas de adaptações livres de mukashi banashi—versões das antigas fábulas japonesas que ouvira do avô.

Sua dedicação ao jornalismo direcionado à comunidade japonesa demonstra como a voz dele vai se deslocando para mais perto da transmissão cultural, da memória oral e da ponte entre gerações.

Ao mesmo tempo, sua aproximação com o zen também se aprofunda. Ele passa a assinar como sacerdote Onmyoji Seto Shamon, escreve horóscopos japoneses e publica, em 1998, a primeira edição do Almanaque Garça da Sorte—um almanaque com previsões do horóscopo chinês para o ano.

À primeira vista, tudo isso pode parecer dispersão. Mas não é!

É coerência, só que por outras vias.

Seto vai ligando pessoas, jornais, instituições, festas, repertórios e histórias. Vai tornando a cultura japonesa menos um patrimônio distante e mais uma prática viva, presenteando a cidade os mundos que ele ajudou a construir.

E talvez seja por isso que, nesta fase, ele já não se limite a ser um artista, ou um jornalista…

Seto se torna um imã… Um agitador cultural! Um consultor de cultura japonesa.

Um verdadeiro mestre zen: focado no momento presente, maleável como a água.

BLOCO 3

Tudo isso vai se condensando em obra…

Em 18 de junho de 2002, Claudio Seto e Maria Helena Uyeda lançam o livro Ayumi — caminhos percorridos, memorial da imigração japonesa em Curitiba e no litoral do Paraná.

O livro levou mais de dez anos para ser escrito, tamanha foi a pesquisa realizada por eles!

O desejo transformou-se em um projeto de longa duração, que demandou não apenas horas de trabalho, mas também de cooperação e amizade.

Mas o desejo não se esgotou nesse primeiro livro. Mal terminaram esse, e já planejavam outros!

E os próximos anos foram—especialmente—intensos! Cheios de reuniões, festivais japoneses, organização de eventos, homenagens e presença constante nas atividades da comunidade japonesa.

Em 2007, Seto recebe o título de Cidadão Honorário de Curitiba.

Em 2008, o troféu HQMix—o prêmio mais importante dos quadrinhos brasileiros—homenageia os premiados com estatuetas inspiradas em O Samurai.

O PRÓPRIO Seto recebe uma dessas estatuetas, como Mestre dos Quadrinhos Nacionais. Foi durante essa celebração que ele encontrou, pela última vez, seu amigo dos tempos da Edrel, Minami Keizi.

Em junho de 2008, duas celebrações muito próximas dizem muito sobre o momento que ele estava vivendo.

No dia 21, a exposição coletiva Arte Nikkei, no Museu Oscar Niemeyer, marca um retorno tímido às artes plásticas.

No dia 23, ele lança o livro “Lendas Trazidas pelos Imigrantes do Japão”, uma coletânea de textos e ilustrações das mukashi banashi—as fábulas japonesas que ele ouvia do avô.

A agenda está cheia.

E ele parece satisfeito com isso.

Talvez porque, nessa altura, Seto já não estivesse apenas fazendo coisas.

Estivesse fechando um circuito.

O menino que recebeu do avô kanji, pintura, lendas e bonsai… agora devolvia ao mundo livros, festivais, jornais, lendas ilustradas, amizades cultivadas!

Seto, que nos deu tantas coisas e dedicou sua vida à expressão, infelizmente teve que se despedir cedo demais.

No dia 13 de novembro de 2008, durante uma consulta de rotina, Claudio Seto sofre um AVC no consultório médico. Dois dias depois, é decretada a morte cerebral. No dia 16, seu coração para de bater.

Mas o episódio não precisa terminar assim, no vazio que essa despedida deixa.

ENCERRAMENTO

Ao longo da vida, Claudio Seto foi muitas coisas.

Um menino em formação.

Um quadrinista prolífico!

Um editor que sabia articular.

Um multiartista que se reinventava…

No fim, vira outra coisa…

Vira um guardião!

Não no sentido de alguém puro… distante do mundo… pacificado demais.

Mas, no sentido de alguém que aprendeu a fazer circular o que recebeu.

Lendas. Desenho. Cultura. Trabalho. Amizade. Memória.

Talvez esse seja o fechamento mais justo para a trajetória dele.

A polimatia de Seto nunca foi exibicionismo de talentos.

Foi uma forma de servir de ponte.

E, quando ele sai de cena, o que fica não é só sua obra…

Fica uma rede.

Fica uma cidade atravessada por sua presença.

Fica uma comunidade que ele ajudou a cultivar.

Ficam as pessoas que conviveram com ele… e que mantêm vivas as suas histórias.

Fica um conjunto de memórias que, sem ele, talvez tivessem se perdido…

A vida de Claudio Seto não se esgota nessa despedida.

Ela continua ressoando…

Essa série é um pedaço da memória de Seto — e, agora que você a ouviu, você também faz parte dela!

Nessa história, não há lições, nem moral, nem nada disso. Mas há o legado: o legado de alguém que ousou ser tão autêntico—

Mesmo tirando TUDO do NA-DA!

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